Maior prêmio do ano: Mega Sena sorteia R$ 105 milhões neste sábado

Apostas para a Mega podem ser feitas até as 19h desta quarta (Foto: Rafael Neddermeyer | Fotos Públicas)

Sonhos de apostadores revelam as dificuldades vividas pelos baianos, que desejam, para si e para parentes, melhores condições de vida

Entrar na fila da loteria é conhecer um pouco do Brasil. Enquanto aguardam ser chamados, as pessoas veem suas dificuldades e sonham em poder solucioná-las. As suas, a de parentes, as de amigos. Elas oram, fazem mandingas, apelam a superstições e silenciosamente pedem a Deus (qualquer deus, mesmo aqueles em que não acreditam) os seis números que vão abrir as portas da esperança e levá-las a outra realidade. Dizem que sonhar não custa nada, mas o bilhete individual da Mega Sena, para seis números, custa R$ 3,50.

Neste sábado (28), a loteria vai pagar R$ 105 milhões a quem acertar as seis dezenas sorteadas. É o maior prêmio do ano. Aplicado na poupança – um investimento conservador e de baixa rentabilidade, embora seguro – ele pode render até R$ 580 mil por mês, ou o o equivalente a mais de R$ 19 mil por dia. O valor também é suficiente para comprar 210 apartamentos de R$ 500 mil ou 700 carros de luxo (R$ 150 mil cada). A chance de ganhar, com um bilhete de seis números, é de uma em 50 milhões.

Paulo Santos Silva, 65 anos, é aposentado e joga na Mega toda semana. Um hábito que adquiriu com a mãe, já falecida. “O sonho dela era ganhar uma casa de Silvio Santos. Comprava tudo dele, Baú da Felicidade, Tele Sena… Se ela tivesse de volta tudo que deu a ele estaria rica”, contou. “Quem sabe eu não ganhe agora?”, completou. E para quê tanto dinheiro? “Na verdade eu não preciso de tanto (R$ 105 milhões). A metade já tá bom (sorri)… Eu ia ajudar meus filhos, tem um, 40 anos, que ainda mora comigo. Outros moram de aluguel”, disse.

Paulo tem quatro rebentos. Todos nascidos em Salvador, cidade para onde se mudou aos 13 anos. “Trabalhava na roça e nas fazendas dos outros, com meu pai. Ele ganhava uns dez mirreis por dia e eu cinco. Era muito difícil”, lembrou. “Aqui fiz de tudo. Fui ajudante de pedreiro, trabalhei na construção civil. Também passei uns tempos trabalhando em Ilhéus e Barreiras, as empresas me levaram para lá”, seguiu.

Paulo se aposentou como trabalhador rural e recebe um salário mínimo por mês. Um de seus filhos é vendedor em loja de eletrodoméstico, outro é pizzaiolo. Uma das suas meninas fez faculdade e se formou em Serviço Social, “para trabalhar em hospital, essas coisas”, mas  está desempregada, “desde que se formou, há três anos”.

Enquanto fala sobre a família e o sonho de dar moradia a todos os filhos, o sorriso de Paulo começa a dar lugar a um semblante de preocupação. Depois de um rápido silêncio, ele falou: “Se eu ganhar este prêmio, ninguém mais vai falar comigo. Essas coisas mudam a gente. E depois, temos de nos preocupar com a violência. Você já viu quantas pessoas ganharam e foram assassinadas?”. Depois de respirar fundo, voltou a sorrir, falando: “Eu compraria uma roça para mim, e voltaria para o interior, deixando meus filhos todos bem”.

Naquele momento, em que a entrevista era dada, um carro forte estacionava na porta da casa lotérica na Ladeira do Campo Santo. Homens armados deixam o veículo e entram com pressa para recolher o dinheiro dos caixas. O aposentado Joaquim de Almeida Santos, 73, acabava de pagar a conta de luz. “Tá muito cara”, repetiu duas vezes. E disse que não gostava de jogar na loteria. “Porque não quero ganhar. Ia perder amigos,  ter mais preocupações e gastar mais com segurança”.

Matrícula 
Paulo não quis mostrar seu cartão, expor as dezenas que marcou, mas garantiu que não tem nenhuma manha para jogar. “Marco os números que me vêm à cabeça na hora”, disse. Já Aílton Manoel dos Santos, 70, aposentado, sempre procura repetir as mesmas dezenas. Entre elas a data de aniversário, a do casamento e a da matrícula do trabalho. “Dá sorte”, garantiu. Ele, no entanto, nunca beliscou sequer um terno em mais de 20 anos de apostas. “Se eu ganhar vou pagar as dívidas que tenho no banco”, comentou. “E cuidar da saúde. Não posso ficar dependendo do SUS”, completou, em tom mais sério. Outra prioridade é ajudar os filhos. Questionado sobre esta necessidade, respondeu: “Eu dei carinho, dei amor, mas não pude dar uma casa a eles. Alguns têm plano de saúde, outros só o SUS. Daria, além de casa,  um plano a todos eles”.

Saúde e moradia também são as preocupações de Bárbara Lúcia Santana, de 57 anos. Ela não teve filhos, mas tem quatro sobrinhos. E também uma mãe, de 84 anos, que precisa muito da ajuda dela. Toda semana, contou, gasta em média R$ 20 em jogos da loteria. Caso ganhe o concurso de hoje, ela pretende dar um plano de saúde para a mãe. “Ela está com as pernas doentes. Doem muito e ela não tem condições de pegar as filas que pega nos postos”, justificou.

Ela também quer comprar casas para os sobrinhos. “Eles precisam. Ninguém aguenta viver de aluguel”. Dos seus sobrinhos, uma ainda está no segundo grau e planeja fazer um curso universitário. Outro, desistiu, “mas tirou o 2º grau”. Ela se referiu ainda a uma outra sobrinha, na casa dos 35 anos. “Ela fez curso de técnica de enfermagem. Mas está desempregada. Ela quer fazer faculdade, mas não pode. Tem filhos para cuidar”, descreveu.

E se ainda assim sobrar dinheiro? “Aí, eu ia ver o que fazer”, disse, pensando para depois completar: “Se eu fosse viajar, queria ir ao Rio de Janeiro. Sempre quis conhecer o Rio”

Faculdade
O agente de segurança Valdir Silva Santana, 40, já tem casa própria, adquirida com esforço em muitos anos de trabalho. Ele é frequentador assíduo de casas lotéricas há 21 anos, “desde que me entendo por gente”. Quando começou com as apostas, sonhava em ajudar a família, pagando a escola dele e de parentes, comprando uma casa para a mãe, garantindo remédio e cuidados para os mais chegados.

Duas décadas depois, continua a sonhar com as mesmas coisas. “Para mim, uma casa bem grande para eu criar uns animais”, falou. “Eu também queria estudar. Entrar em uma faculdade e me formar em Educação Física ou Fisioterapia”, complementou.

Ele admitiu que é quase impossível ganhar, mas disse manter a esperança, que “é a única coisa que esses políticos não podem tirar da gente”. “Enquanto eu trabalho, vou tentando. Um dia eu ganho e é aí que quero ver”, afirmou às gargalhadas. “Chance é chance. É igual para todo mundo”, falou. “A oportunidade é a mesma”, ratificou, referindo-se, claro, à loteria e às probabilidades de cada um ser sorteado.

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