O diretor-presidente da Salvador Destination, Paulo Gaudenzi, não acredita que o Carnaval de Salvador esteja enfraquecendo. “Eu como convivi com muitos carnavais trabalhando com o poder público, percebi que o Carnaval é uma festa permanentemente mutável. Ela vai se adaptando. E gosto de dizer o seguinte: quem faz o Carnaval é o povo. O governo e a prefeitura organizam alguma coisa, mas não adianta. Se o povo quer dançar frevo, dança. Se quiser dançar arrocha, dança. Então, é uma coisa que ela vai se readaptando”, analisou, em entrevista à Tribuna. O ex-secretário minimiza os movimentos dos grandes empresários de camarotes, que planejam deixar os grandes circuitos no ano que vem. Gaudenzi lembra que, no capitalismo, os espaços nunca ficam vazios. Ainda no papo, o empresário avalia que o turismo em Salvador vive um bom momento e que o fator econômico será fundamental para o futuro do setor.
Osvaldo Lyra e Paulo Roberto Sampaio
Tribuna da Bahia – A gente chega na semana do Carnaval com blocos esvaziados e alguns até fora da folia. Qual é o motivo?
Paulo Gaudenzi – Não posso lhe dizer em relação aos últimos anos. O que posso dizer é o seguinte: passei muitos carnavais trabalhando com o poder público e percebi que o Carnaval é uma festa permanentemente mutável. Ela vai se adaptando. E gosto de dizer o seguinte: quem faz o Carnaval é o povo. O governo e a prefeitura organizam alguma coisa, mas não adianta. Se o povo quer dançar frevo, dança. Se quiser dançar arrocha, dança. Então, é uma coisa que ela vai se readaptando. Me lembro que em um desses anos, a Tribuna da Bahia organizou um seminário depois do Carnaval. Eu estava na Bahiatursa. Naquela época as críticas eram que os clubes estavam acabando. E eu disse que não era nenhum problema isso, porque eles iriam ser substituídos pelos camarotes. Vinte anos depois está aí. Essa é uma festa mutável. Curto Carnaval desde que me entendo por gente. Com cinco anos, vi passar a fobica de Osmar ali pela Piedade.
Tribuna – Mas essa mudança atual preocupa?
Gaudenzi – O capitalismo tem essa coisa: sai um, mas não tem espaço vazio. Alguém sempre vai ocupá-lo. Tenho lido que o Governo e a Prefeitura estão contratando trios independentes para puxar o povo, principalmente nos circuitos aqui de cima [Campo Grande] que estavam muito fracos nos últimos anos. Porque os artistas, as grandes figuras e os grandes nomes só queriam ir para a Barra. E por que na Barra? Por que lá a cobertura jornalística é melhor, você sai na telinha. Desde o meu tempo, nós tínhamos um grave problema. Para não atrasar o circuito, que no passado era muito pior, a gente marcava tempo para a passagem dos blocos em frente aos palanques oficiais no Campo Grande. O problema é que, quando você passava no palanque, estava a telinha. E aí ninguém queria sair. Eles estão errados, os artistas? Não, porque é com isso que eles vão vender os blocos e os carnavais fora de época. Então, nós estamos numa entressafra. É o que eu leio dessa situação, sem estar envolvido diretamente. Nós estamos numa entressafra econômica, de valores, de músicas… O Carnaval está passando por um processo de mudança. Nós dizemos aqui na Bahia que o nosso Carnaval é multifacetado, de todas as linguagens, mas no fundo tem uma carência de qualidade grande. Mas isso é assim, daqui a pouco melhora. Agora, eu acho que nós passamos uma crise dificílima. Os economistas dizem que os anos de 2016 e 2017 foram os piores. Então, isso tudo deve influir. É menos gente que viajou, com dinheiro para comprar, e a quantidade de entidades é grande. Acho que o mercado acomoda isso. Tanto o mercado do lazer e do entretenimento, quanto o econômico.
Tribuna – O Carnaval do Rio vai contabilizar neste ano 464 blocos de marchinhas e fanfarras. O mesmo tem acontecido em São Paulo e Belo Horizonte. Isso, de certa forma, fragiliza o Carnaval de Salvador? O senhor acredita que a mudança no modelo da folia possa ser uma ameaça para o formato atual?
Gaudenzi – Não acredito que seja ameaça. Vou lhe dizer o que sinto: você tem pessoas que não estão correndo para viajar. Seja bom ou não, passa a ser ótimo. Que as pessoas tenham o pensamento de vir para cá no Carnaval, elas têm. A Bahia tem um recall muito grande e sempre tem gente querendo vir para cá. Então, o que é que eu vejo: fui passar o Carnaval fora no ano passado, no Rio de Janeiro, para ver Ivete na Sapucaí. Passei a semana lá e fui para vários bloquinhos. Muitos daqueles não têm nenhuma característica do que a gente tem. Fui em dois que não saiam do lugar, perto do hotel onde eu estava, em Copacabana. É outra característica. O de São Paulo está crescendo também. Ouvi hoje que João Dória vai pegar a rua 23 de Maio e vai fazer um circuito como a gente faz aqui. Acho que São Paulo tem 10 milhões de pessoas e é ótimo que as pessoas tenham esse Carnaval, mas não acho que isso vai tirar o Carnaval de Salvador. O que diminui, se é que está diminuindo, é o fato econômico.