janeiro, quando uma ponte caiu, jogando no mar mais de 60 pessoas. No último sábado 17, aconteceu o segundo acidente, com a queda da estrutura do segundo ‘píer’ da Ilha de Maria Guarda, jogando cerca de dez pessoas na água.
No primeiro acidente, embarcações próximas auxiliaram na retirada. Neste episodio, mais recente, um pescador de nome Orlando, mas conhecido como “Pelourinho”, foi quem salvou as vítimas, em torno de dez pessoas. Apenas uma sofreu leve arranhão.
O píer, que desabou em janeiro passado, no terminal náutico de Madre de Deus, havia sido inaugurado, quatro anos antes, após reforma feita pela Pablo Engenharia Ltda, sediada no bairro do Chame-Chame. A obra custou aos cofres da Prefeitura de Madre de Deus R$ 3,1 milhões, além de outros aditivos feitos posteriormente ao contrato.
Já a queda do píer, da ilha de Maria Guarda, está na conta da Submariner Comércio e Serviços de Equipamentos Ltda, com sede no bairro da Barra. A empresa firmou contrato com a prefeitura de Madre de deus no valor de R$ 185,7 mil para requalificar o equipamento. A licitação foi concluída em maio de 2015.
Imbróglio
Em agosto passado, em entrevista à Tribuna da Bahia, a secretária de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), Kátia Carmelo disse que a Sociedade nacional de Apoio Rodoviário e Turístico Ltda (Sinart) reconheceu, inicialmente, a culpa, quando do acidente, mas que queria imputar a responsabilidade à Prefeitura, alegando que houve falha estrutural do projeto.
“Nós corroboramos com o laudo pericial da Policia Civil. Havia mais de 60 pessoas concentradas numa rampa, que cabe apenas e tão somente, 20 pessoas circulando. Essas pessoas aguardavam por um embarque em uma escuna, quando o acidente ocorreu. A passarela se rompeu, na metade, devido à sobrecarga”, justificou.
Kátia Carmelo acredita que somente com a mediação do Ministério Público do Estado (MPE), o imbróglio será desfeito.”Na época, demos prazos curtos e elásticos à Sinart. Ela cumpriu, parcialmente, os primeiros e agora, a reforma e a recuperação do píer caminha para a judicialização”.
Negligência
No evento no último sábado 17, a prefeitura diz em nota: “ que o local já foi isolado e o Departamento de Polícia Técnica realizará uma perícia para apontar as causas da queda”. E que através da Secretaria de Infraestrutura, manteve contato com a construtora responsável e que a partir desta segunda-feira 19, a empresa fará uma avaliação técnica e dará início a restauração”, completa a informação.
Entre moradores, visitantes e comerciantes, o sentimento é de indignação com a negligência e o descaso com as vidas humanas que o prefeito Jeferson Andrade, está tendo. “Será que Madre de Deus espera viver uma tragédia, com vítimas fatais, para que as providências sejam tomadas?”, dizem, de forma unânime. Sobre a restauração do píer da ilha Maria Guarda, o descrédito é ainda maior: “Se ocorrer, da mesma forma do primeiro acidente, a espera será longa. Até hoje, não foi realizada nenhuma obra no local. “Os tapumes estão lá, barrando a locomoção das pessoas e escondendo a má administração do prefeito”, diz um morador que prefere não se identificar para não sofrer coações.
E acrescenta com igual desenvoltura: “Esta cidade já foi um modelo entre os principais municípios baianos. Tínhamos a melhor saúde; educação de qualidade para jovens e crianças. Hoje, é isto que o senhor vê. Um descaso completo. Uma total falta de respeito à população. E o que mais me entristece, é saber que ele foi eleito com voto maciço deste povo de Maria Guarda. Por isso, ele tem obrigação com este povo e deveria oferecer uma atenção toda especial”.
Turistas
Para a comerciante Joelma Xavier, 37 anos, dona da ‘Pousada Pôr-do-Sol’, que funciona com dez quartos, acomodando duas pessoas em cada um, a ausência de hospedes já preocupa. “Eu cobro R$80,00 pela hospedagem de segunda à quinta; e R$100,00 nos finais de semana e feriados. Mas, tão logo o vídeo, falando da queda do píer, viralizou nas redes sociais, já recebi diversos telefonemas de clientes receosos em vir para cá. Muitos não sabem que existe o outro píer, e que caminha também para um desfecho triste. Dizem, que os pescadores que utilizam bombas estão prejudicando a estrutura do local. E a tragédia, desta vez, está sendo anunciada”, lamenta.
A prefeitura, como medida emergencial, está colocando uma balsa atracada para que os moradores do cais e turistas continuem tendo acesso, enquanto a obra estiver sendo executada. Quatro profissionais da Defesa Civil estão no local, e na ponte principal, fazendo o controle de acesso dos passageiros. A ponte móvel que caiu fica no Píer do Apicum, uma distância de pouco mais que dois quilômetros até o píer considerado principal, e que fica localizado defronte da Igreja.
Perigos
No pico do Verão, quando acontecem as festas populares como o ‘Madre Music’ – a cidade chega a receber 2,5 mil pessoas entre turistas e veranistas. Este ano, a festa ainda não tem confirmação conforme esclarece o assessor de Comunicação da Prefeitura, Idson Santos. Mas, os perigos do Verão, em Madre de Deus e nas ilhas no seu entorno, estão bem definidos.
Para o administrador de empresas Roberto Castro, 60 anos, existem riscos de acidentes para jovens crianças e idosos na mobilidade nos atracadouros.”Está difícil de subir e descer das embarcações”. O estudante de Administração João Luis, 31 anos, e sua irmã, a professora Tais Lopes Campos, 39 anos, não poupam criticas ao prefeito Jeferson Andrade.
“Vejo como um descaso da prefeitura com os pontos turísticos da cidade. Será que ele não percebe que é através do turismo que o município se movimenta? Ele deveria dar mais atenção a esses locais e proporcionar mais segurança aos moradores e visitantes Infelizmente esta negligência é o lado negativo da situação. Com os royalties que a cidade recebe da União,não há ncessidade desse descuido com as vidas humanas”, afirmam.
Patrimônio
Analista de Informática, Alan Bandeira, 39 anos, e sua companheira de viagem, Fernanda Dias, 34 anos, reconhecia a beleza natural da Maria Guarda, mas tinha restrições a outros aspectos essenciais a um local aprazível e candidato ao turismo nacional. “Você vê um patrimônio desse desmoronando, não pensa em ficar. Desiste ou então procura outras ilhas mais próximas. Aqui não há infraestrutura essencial para receber os visitantes e a falta do píer termina prejudicando mais ainda”, dizem.
Industriário e profissional da solda elétrica, Antonio Carlos Alcântara, 58 anos, vai fundo na questão. “A realidade é uma só. O prejuízo atinge a todos indistintamente. As lanchas já não querem mais parar aqui na ponta do Apicum. E, do píer principal até aqui, são 15 minutos de caminhada. Imagine uma pessoa, que chega com suas compras ou um deficiente físico. Vai ter que se virar para conseguir chegar em casa. Já o visitante, que vem se divertir, a caminhada na beira da praia se torna até agradável”,
Proprietário de algumas lanchas, Moacir Dias Vasconcelos, 51 anos, reconhece que os prejuízos vão aumentar no Verão. Com a sua ‘Lepo-Lepo’, diz que faz uma média de seis viagens por dia, levando 20 pessoas a cada vez. “O que aconteceu com o píer foi pura falta de manutenção. Houve oxidação do material e a ponte caiu”. Ao seu lado, o ‘xará’ Moacir Alves Fernandes, 76 anos, ex-mecânico de autos, crava na ferida: “Foi uma queda programada. Era para ser utilizado aço inox e não ferro, que oxida rápido. Eles deram muita sorte não ter havido mortes”.
Reclamações
Na frente de casa, tomando banho de sol com amigas, a técnica em enfermagem Neuzi Borges dos Santos, 57 anos, lamenta as dificuldades que haverá de passar, a partir de agora. “Esse píer fica aqui perto da minha casa. Agora, teremos que soltar no primeiro píer e caminhar tudo isso!”. A manicure Liliane Menezes, se aproxima e completa a resposta da amiga: “Antes já era difícil fazer as lanchas virem até aqui. Imagine agora. Vamos ter que nos humilhar. Soltar lá na frente e pagar um carrinho de mão para trazer as nossas compras”.
No píer principal, enquanto aguardava retorno para Madre de Deus, o industriário Carlos Vinicius Almeida, 43 anos, reclama da atuação da Sinart. “Ela só faz cobrar taxa de embarque, mas não cuida da manutenção do equipamento. Por sua vez, a prefeitura não investe nos atrativos que a cidade tem”. Fato este corroborado pelo industrial, Edilson Pereira Melo, 62 anos. “Temos belas ilhas por aqui, que não são exploradas como deveriam ser. Faltam empresas para oferecer infraestrutura e transformar este lugar num paraíso. A minha tristeza é saber que a Prefeitura recebe R$13 milhões por mês, dos royalties do petróleo, e não mostra sequer onde aplica”, finaliza.
Ilha Maria Guarda
Localizada no coração da Baía de Todos os Santos, a pequena ilha Maria Guarda tem aproximadamente 1.300 habitantes. O clima da ilha é incrível lembra um pequeno interior, com pessoas super acolhedoras.
A principal praia da ilha é a Prainha do Gravata, uma pequena extensão de areia, com águas calmas e cristalinas. O melhor local para ver o pôr-do-sol é, justamente, em frente a única Pousada da ilha (Pousada Pôr do Sol).
A ilha é ideal para quem procura dias de descanso e paz longe das grandes metrópoles. É possível caminhar com tranqüilidade, tendo a segurança da Policia Militar e câmeras espalhadas estrategicamente nos postes de iluminação.
O acesso para ilha de Maria Guarda é feito pelo terminal marítimo da cidade de Madre de Deus. Uma travessia tranquila de 15 minutos custa R$3,50 por pessoa e mais R$0,90 como taxa de embarque.
Madre de Deus
Madre de Deus é uma cidade pequena, porém bastante acolhedora. Tem pouco mais de 32 mil km de área e uma população estimada em 21 mil habitantes. Encanta turistas e veranistas pela sua diversidade de belezas naturais, onde se destacam os manguezais e as restingas.
Integrante do arquipélago da Baía de Todos-os-Santos, a cidade está ligada ao continente, através de uma ponte e por uma estrada – se assim podemos denominar – que fica a dever aos motoristas tanto nos quesitos de conforto e segurança.
A emancipação da cidade ocorreu em 13 de Junho de 1986 dando origem ao Município. Paulo Queiroz foi o primeiro prefeito tendo assumido em 1º de janeiro de 1990 e eleito dia 15 de Novembro de 1989.