Mancha de óleo já matou pelo menos 10 filhotes de tartaruga, diz Projeto Tamar

Segundo um levantamento do Projeto Tamar, os primeiros registros de tartarugas mortas começaram na semana passada, na Bahia (Foto: Maurício Cardim | Projeto Tamar)
Segundo um levantamento do Projeto Tamar, os primeiros registros de tartarugas mortas começaram na semana passada, na Bahia (Foto: Maurício Cardim | Projeto Tamar)

Projeto Tamar recebeu 10 filhotes do animal mortos devido ao contato com o óleo

Filhotes de tartarugas mortos e encharcados de óleo, peixes asfixiados e crustáceos cobertos de preto. As manchas de óleo que atingiram a região Nordeste no mês de setembro e atingiram a Bahia na última quinta-feira (10) não deixaram rastros apenas na areia das praias.

Segundo um levantamento do Projeto Tamar, os primeiros registros de tartarugas mortas começaram na semana passada, na Bahia. Desde a última sexta-feira (11), foram recolhidos 10 filhotes mortos nas praias de todo o estado. Outros dois foram resgatados com vida e passarão por uma reabilitação antes de serem soltos no mar.

Já o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) tem outros dados. Segundo o órgão federal, foram registrados 14 animais marinhos mortos na região, sendo duas tartarugas na Bahia. Outras três tartarugas foram resgatadas sujas de óleo no estado, mas com vida e também passarão com reabilitação.

De acordo com o Projeto Tamar, o processo para recuperar esses animais envolve a retirada dos resíduos, além de submetê-los a fluidoterapia e utilização de anti-tóxicos. No caso dos filhotes, o cuidado precisa ser ainda maior, porque eles são mais frágeis e suscetíveis aos efeitos físicos e tóxicos das manchas de óleo, por estarem iniciando o seu desenvolvimento.

O biólogo Maurício Cardim explica que o óleo é muito viscoso e, por isso, se torna uma espécie de barreira para os filhotes que tentam chegar no mar. “Eles ficam presos no óleo. Com esse contato, estão expostos a gases emitidos pelo petróleo cru, principalmente quando expostos ao sol”, diz. Segundo ele, o material esquenta muito rápido e a temperatura elevada desencadeia um processo químico que gera intoxicação.

Em nota postada no site do Projeto Tamar, a instituição afirma que as equipes têm intensificado o monitoramento da situação para garantir que os filhotes que eclodem em ninhos nas praias não fiquem presos no óleo. Nos locais mais afetados, as tartarugas são retidas e liberadas ao mar a partir de uma avaliação diária da situação das praias, fornecida pelos órgãos responsáveis. Assim, os animais são levados a áreas de menor risco para serem soltos.

A equipe do Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) que esteve ao local coletou 18 animais mortos para realizar a necrópsia, como lagostas, camarões, mexilhões, lesmas do mar e corais. Segundo o diretor da unidade, Francisco Kelmo, 80% destes bichos morreram por asfixia, pois o óleo se liga às brânquias e às guelras, e os corais ficam recobertos pelo resíduo.

Outros animais devem ser recolhidos durante a semana. Segundo Kelmo, o instituto deseja fazer o sobrevoo dos mangues para localizar os pontos mais críticos, para quantificar o número de vivos e mortos, e medir o impacto do óleo. O diretor afirmou que manguezais já foram atingidos na Bahia.

Kelmo aponta ainda a importância dos mutirões de limpeza voluntário. Para ele, é necessário unir os esforços para conter os danos ambientais. “A ação da população é muito bem-vinda. Quanto mais rápido, menos difícil vai ser a recuperação. O instituto não vai parar enquanto não resolver o problema”, garante.

Atenção perto do óleo
O contato de banhistas e voluntários com o óleo pode ser bastante prejudicial à saúde. De acordo com o dermatologista Ricardo Pessoa de Sá, as substâncias presentes na substância podem causar reações alérgicas, que se manifestam através de sintomas como vermelhidão, coceira e bolhas d’água, a depender do tempo de exposição.

Um contato prolongado pode fazer com que a pessoa tenha tonturas e enjoos, especialmente idosos e crianças, que têm a pele mais fina. Em casos de exposição aos resíduos, é ideal que a pessoas saia imediatamente do local contaminado e lave a região do corpo com água e sabão.

Caso o resíduo grude na pele, a indicação é passar alguma substância oleosa para que desgrude, como óleo de cozinha ou algum hidratante.

Segundo o especialista, é indicado procurar um médico nos casos mais intensos, ou seja, quando o contato provoca bolhas, tonturas e enjoos. Além disso, todo mundo deve evitar o banho de mar nos locais afetado pois, na água, a área de absorção do corpo é maior.

A população deve se atentar também para a ingestão de ostras e crustáceos. Por serem animais que filtram a água, as substâncias contaminantes ficam concentradas na pele desses animais. “A ingestão de alimentos contaminados pode provocar inflamação no sistema digestório e provocar cólicas, diarreias e dor no estômago”, indica. Nos peixes, a contaminação é menor, pois as substâncias se concentram mais nas guelras.

Óleo na Bahia
Até o momento, há registros de oito cidades baianas afetadas pelo petróleo cru. Com a extensão da mancha de óleo, o governo da Bahia decretou situação de emergência no estado, na tarde desta segunda-feira (14). Com o decreto, seis cidades oleadas podem receber recursos e contratar serviços sem licitação: Camaçari, Conde, Entre Rios, Esplanada, Jandaíra e Lauro de Freitas.

Nesta terça (15), os ministérios Públicos Federal (MPF) e do Estado da Bahia (MP-BA) ingressaram com uma ação civil pública contra a União e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama).

Os órgãos solicitam que a Justiça determine, em liminar, a adoção de medidas de contenção, recolhimento e destinação do material poluente, com “foco na proteção de áreas sensíveis do Estado da Bahia”.

Em Salvador, a Empresa de Limpeza Urbana (Limpurb) informa que foram atingidas as praias de Ipitanga, do Flamengo, Piatã, Itapuã, Placaford, Jardim de Alah, Jardim dos Namorados e Buracão (Rio Vermelho). A Marinha do Brasil aponta ainda que a orla de Ondina também já está com resíduos.

Mesmo sem novas manchas na orla da capital nas últimas 24 horas, a Limpurb continua de plantão dia e noite. A empresa continua monitorando as praias até que todas as possibilidades de chegada de mais material sejam descartadas pelas autoridades competentes.

Tartarugas foram encontradas com manchas de óleo no corpo (Foto: Maurício Cardim | Projeto Tamar)

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