As queixas da população de Camaçari quanto ao atendimento em saúde são antigas: vêm desde a gestão Ademar Delgado (PT), senão de antes. No entanto, atualmente os munícipes se vêm espremidos pelo jogo de empurra entre Sesau e Sesab: diante das queixas, ambas trocam acusações enquanto o povo permanece passivo, esperando uma solução vinda “de cima”.
Aliás, a passividade da população, em vários níveis, também é um fator que pesa negativamente na equação.
Sesau
Desde a mudança do formato de atendimento do Hospital Geral de Camaçari (HGC) para unidade exclusivamente referenciada, ocorrida em 1º de dezembro de 2020, a Secretaria de Saúde do município (Sesau) tem atribuído a superlotação dos leitos da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Gleba A à demorada da Central Estadual de Regulação em transferir os pacientes de maior gravidade para unidades hospitalares.
Nesta segunda-feira (07), em resposta a diversas denúncias que circulam nas redes sociais sobre as condições de atendimento na UPA da Gleba A, a Sesau voltou a colocar parte dos problemas na conta da Sesab. “Sobre a superlotação de leitos a Sesau informa que há pacientes na UPA há mais de uma semana aguardando ser transferido pela Regulação do Estado para um hospital de referência e não consegue”, disse a Sesau em nota.
Ainda de acordo com o município, a superlotação é resultado do sistema adotado no HGC “atitude que fez com que todos os pacientes fossem para as unidades de urgência do município e piorou o tempo de espera, dos pacientes internados, por uma transferência”, afirma na mesma nota.
A mesma informação vem sendo repetida tanto pela pasta quanto pelo secretário de Saúde, Dr. Elias Natan, desde dezembro.
Sesab
A Sesab, por sua vez, procurada pelo CFF nesta terça-feira (09), confirmou a informação de que há pacientes aguardando regulação há mais de sete dias, mas disse que é um “caso pontual” e que “a Central Estadual de Regulação consegue atender maior parte das demandas em até 48h”.
Por outro lado, a secretaria não dá demonstrações de interesse em fazer qualquer movimento para minimizar o impacto da mudança no atendimento do HGC no município. Nas oportunidades em que foi procurada pelo CFF, a Sesab passou o mesmo posicionamento: “no que se refere ao atendimento de urgência e emergência, é de responsabilidade do município oferecer, de maneira adequada suficiente, esta assistência aos seus munícipes.”
É fato que a mudança gerou forte impacto no município: segundo dados da própria Sesab enviados ao CFF em dezembro, 91% dos atendimentos do HGC eram para pacientes de Camaçari. Na prática, o HGC estava, há vários anos, operando quase como hospital municipal.
Responsabilidades
Ambas Sesau e Sesab têm responsabilidades a cumprir no atendimento à população. Se o município deveria oferecer mais leitos nas UPAs, o Estado deveria garantir a regulação dos pacientes em fila em tempo hábil. Além disso, ambos deveriam investir em conscientização para saúde preventiva, de modo a reduzir o volume de pacientes tanto nas UPAs quanto nas emergência dos hospitais. Nenhum dos dois o faz.
De acordo com uma pesquisa feita pela Harvard Business Review, divulgados pela Saúde Business, pacientes com doenças crônicas representam 50% dos custos no setor de saúde, episódios agudos vêm em seguida com 35% dos gastos, e o investimento com medicina preventiva gira em torno de 5 a 14%. “Com a promoção de saúde e a medicina preventiva, a gente consegue evitar casos de emergência espontânea, podendo salvar muitas vidas e evitando esses episódios agudos, que são os maiores custos das operadoras de plano de saúde no Brasil”, afirmou a infectologista Dra. Ana Helena Figueiredo, sobre o levantamento.
Além disso, embora não seja responsabilidade direta do Estado atender a maioria dos casos antes direcionados ao HGC – o perfil da maioria dos atendimentos era de baixo risco – seria no mínimo uma atitude humana estabelecer um prazo para que o município se adequasse ao novo modelo. Não foram divulgadas informações sobre esse tipo de diálogo.
Na outra ponta, dois meses já se passaram e, até então o município não anunciou nenhum projeto de ampliação de leitos, se limitando a lamentar pelas acomodações do HGC não estarem mais à livre disposição da demanda. Até quando, Sesau?
Enquanto as duas secretarias trocam acusações sobre de quem é a responsabilidade em garantir que a população receba o atendimento adequado, o povo sofre nas filas internas e externas.
Político, cultural e antigo
Os problemas com o atendimento em Saúde, em Camaçari, não são novos nem novidades. São políticos, culturais e antigos. A maioria deles começa bem antes de a pessoa, doente, chegar na porta da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e levar horas até ser atendido.
A maioria da população simplesmente desconhece a estrutura do sistema de saúde e seus direitos. Outras tantas até conhecem, mas esbarram nos vícios já naturalizados e acabam somando as estatísticas e as queixas.
Um exemplo disso é o caminho que deveria ser seguido pelos pacientes até chegar a uma UPA ou hospital. De acordo com o preconizado pelo SUS, a porta de entrada do cidadão no sistema de saúde público é a Unidade Básica de Saúde (UBS) ou o Posto de Saúde da Família (PSF).
Além do acompanhamento e da saúde preventiva, essas unidade são responsáveis, pelo menos na teoria, por atender casos poucos urgentes, onde não há nenhum risco aparente.
Sabe quando você sente uma dor incomum na cabeça, ou quando seu filho tem uma febre ou pequeno resfriado? Esse atendimento deveria ser prestado pela unidade de saúde da família do seu bairro. Todos os casos que recebem pulseiras verdes ou azuis nas UPAs e no hospital poderiam ter recebido atendimento inicial na UBS ou no PSF e deveriam ser encaminhados para unidades de maior complexidade apenas se a equipe médica das unidades básicas julgasse necessário.
Na prática, não é o que acontece: em geral, os atendimentos das UBSs e PSFs são apenas sob agendamento, como longos períodos de espera para realizar consultas e exames. Como resultado, a população deixa de investir preventivamente na sua saúde e situações que poderiam ser evitadas acabam evoluindo para urgências e emergências.
O somatório de governos fazendo jogos de empurra, da falta de campanhas educativas, de uma população que desconhece seus direitos e de uma parcela de gestores que ainda adota a política do “quanto pior, melhor” é a receita pronta do sofrimento.
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