
O fenômeno da adultização infantil nas redes sociais ganhou destaque nacional após um vídeo do influenciador Felipe Bressanim, conhecido como Felca, viralizar com mais de 35 milhões de visualizações em apenas cinco dias. A denúncia, que expõe casos graves de exploração e sexualização de menores em plataformas digitais, gerou uma rara convergência entre vozes da direita e da esquerda, além de mobilizar o Congresso Nacional para ações legislativas urgentes.
Quem é Felca e o que ele denunciou
Para quem não o conhece, Felca é um youtuber de 28 anos que começou a atuar na plataforma com vídeos no estilo “react” (palavra inglesa que significa reação) e, recentemente, usou sua notoriedade para se posicionar contra assuntos importantes, como o combate à atuação de influencers que divulgam casas de apostas e “jogos do tigrinho”.
No vídeo que está viralizando agora, Felca mergulhou em uma investigação sobre a exploração de crianças na internet e apresenta, em 50 minutos, um compilado de denúncias sobre influenciadores e até familiares que abusam da imagem de crianças e produzem conteúdo infantil sexualizado para alimentar redes de pedofilia. Além disso, ele demonstra como o algoritmo das redes sociais funciona para entregar esse tipo de conteúdo a predadores e aponta como esses criminosos criam uma teia bem organizada para atrair, roubar e compartilhar indevidamente imagem de crianças, mesmo as que parecem inocentes.
“Eu realmente mergulhei no lamaçal. Foi muito aversivo fazer esse vídeo”, comentou Felca, que revelou andar com veículo blindado e seguranças para se proteger de possíveis ameaças após a publicação.
Entre os casos expostos está o do influenciador Hytalo Santos que promovia uma espécie de reality show para as redes sociais recrutando crianças e adolescentes. Em alguns casos, os menores eram incentivados a se envolverem em relacionamentos afetivos e tinham, constantemente, sua intimidade exposta sem nenhum filtro, com foco em comportamentos hipersexualizados das meninas.
Felca também denuncia o que chama de “algoritmo P”, explicando como os sistemas de recomendação das plataformas podem ser facilmente condicionados a propagar conteúdo que promove a adultização de crianças e facilita a atuação de pedófilos. Em uma demonstração prática, ele criou uma conta nova, deu alguns likes em vídeos de crianças em poses consideradas sugestivas, e em poucos minutos o feed estava tomado por material do mesmo tipo.
A repercussão nacional e política
A repercussão do vídeo foi imediata e ampla. O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), comprometeu-se a pautar projetos sobre o assunto. “Esse é um tema urgente, que toca no coração da nossa sociedade”, afirmou.
Até o início desta semana, 32 projetos de lei já haviam sido protocolados na Câmara sobre adultização e penalização da pornografia infantil. Um deles, de número 3852, sugere abertamente a criação de uma “Lei Felca”.
Por outro lado, chamou atenção o aparente desconhecimento por parte de senadores e deputados das leis que já existem para proteger a imagem de menores: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Criado há mais de 30 anos, o ECA não delibera sobre redes sociais, que não existiam, mas proíbe expressamente a exploração da imagem de crianças e adolescentes, bem como a exposição da imagem de menores em situações que configurem abuso. Naturalmente, o ECA também veda e prevê punição para quem produz, armazena e distribui conteúdo sexual de crianças e adolescentes. A lei já existe, só não é aplicada com rigor.
Os riscos da adultização infantil segundo especialistas
Antes de Felca, diversas vozes já denunciavam a exploração sexual de crianças e adolescentes através das redes sociais. Uma dessas vozes é Sheilli Caleffi, escritora e ativista reconhecida por seu trabalho contra a violência sexual e os riscos da internet para jovens e crianças.
“Existe um perigo gigantesco na internet que os pais ainda ignoram”, afirma Calefi. Segundo a especialista, criou-se um mito de que em casa a criança está segura porque a rua é perigosa, mas os riscos online são enormes e muitas vezes piores do que na rua.
Entre os perigos destacados por Caleffi estão “conteúdos inadequados para a idade, como pornografia, violência, incentivo a autolesão, suicídio, desafios inadequados, conteúdos que influenciam o consumismo, comparação física e de padrões de beleza”. E nada disso é por acaso: existe uma rede de pessoas que lucra financeiramente ou obtém outros “benefícios” através da exploração de crianças e adolescentes.
Se você é pai ou mãe e também acredita que o “celular” ou “computador” é seguro, veja o vídeo completo. https://www.youtube.com/watch?v=FpsCzFGL1LE&t=45s
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