Ao sinalizar delação, Palocci transita entre dois conselhos de Lula

Ex-ministro Antonio Palocci
Ex-ministro Antonio Palocci

O ex-presidente Lula e o ex-ministro Antonio Palocci têm uma relação de décadas. Este assumiu a coordenação do programa de governo da quarta campanha presidencial do petista, em 2002, com a morte do então prefeito de Santo André, Celso Daniel.

Mas foi em outubro daquele ano, que Palocci virou o interlocutor do ex-presidente junto aos empresários e aos mercados. E foi isso que levou Lula a convidar um médico para assumir o Ministério da Fazenda.

O primeiro a dar o recado a Palocci de que ele poderia comandar a economia foi Luiz Gushiken, que depois se tornaria ministro da Secretaria de Comunicação de Lula.

Eleito, o ex-presidente decidiu que Palocci seria ministro em dezembro de 2002, mas não divulgou a escolha publicamente.

Lula só anunciou o médico como ministro da Fazenda quando estavam em uma viagem aos EUA, logo após a vitória do petista. Palocci foi pego de surpresa: nada daquilo havia sido combinado. “Quase caí da cadeira”, escreveu o ex-ministro em seu livro “Sobre formigas e cigarras”, publicado em 2007.

Pressionado pela imprensa, que queria saber as ideias do futuro ministro, Palocci saiu sem falar com os repórteres. E foi a Lula. Disse que não achava certo dar sua primeira entrevista sobre economia nos Estados Unidos.

Lula, então, respondeu:

“Fique tranquilo, Palocci. Por que você tem que falar? Simplesmente não fale”.

Em seu livro, Palocci disse que esta foi uma das “tantas lições” que aprendera com Lula, a quem qualifica como “líder obstinado, dono de um carisma inconfundível e uma sabedoria política rara”.

E conclui o seu raciocínio com a seguinte frase: “sim, de fato: por que mesmo eu teria que falar? Era só não falar.”

Três anos após esse episódio, Lula deu outro conselho – só que no sentido oposto. Na mira de acusações envolvendo ex-assessores da sua gestão como prefeito em Ribeirão Preto, Palocci foi obrigado a se explicar. Convocara uma coletiva de imprensa em um domingo, ao meio-dia.

Antes, avisou ao ex-presidente – e colocou seu cargo à disposição. Lula, do outro lado da linha, disse a Palocci para dar uma boa entrevista:

“Não quero que você saia. Vá lá e fale a verdade”.

Desde os fato narrados acima até hoje, Palocci passou pelo ministério da Fazenda e caiu. Depois, foi coordenador da campanha de Dilma Rousseff em 2010 e, em seguida, virou ministro da Casa Civil – mas também caiu. Em 2016, foi preso pela Lava Jato.

Em 2017, com o avanço das investigações, aquele primeiro conselho de Lula para que “simplesmente” não falasse parece cada vez mais perdido nas memórias do ex-ministro.

A frase do próprio Palocci em seu depoimento a Sergio Moro afirmando que, se a Lava Jato quiser, está disposto a revelar “nomes e operações”, mostrou que o ex-ministro está cada vez mais disposto a ir lá “falar a verdade” – como aconselhou o ex-presidente na crise de 2005.

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