Bahia lidera ranking de racismo policial com 94,6% de vítimas negras em 2023, aponta estudo

Levantamento, que analisou as 4.025 mortes por ações policiais no Brasil no ano passado, identificou raça e cor em 3.169 casos (Foto: Reprodução)
Levantamento, que analisou as 4.025 mortes por ações policiais no Brasil no ano passado, identificou raça e cor em 3.169 casos (Foto: Reprodução)

A Bahia ocupa um lugar de destaque sombrio em um cenário nacional alarmante: 94,6% das vítimas de violência policial no estado em 2023 eram negras, segundo o estudo Pele Alvo: Mortes Que Revelam Um Padrão, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança e divulgado em novembro deste ano.

O levantamento, que analisou as 4.025 mortes por ações policiais no Brasil no ano passado, identificou raça e cor em 3.169 casos. Entre esses, 87,8% das vítimas eram negras. No entanto, 856 vítimas (21,3%) não tiveram sua raça informada, o que limita a análise completa do cenário de violência racial.  

Na análise por estados, o padrão é evidente:

– Bahia: 94,6% das vítimas eram negras  

– Pernambuco: 95,7%  

– Amazonas: 92,6%  

– Pará: 91,7%  

– Ceará: 88,7%  

– Rio de Janeiro: 86,9%  

– Maranhão: 80%  

– Piauí: 74,1%  

– São Paulo: 66,3%  

A Bahia também lidera o número absoluto de mortes por intervenção policial, com 1.702 casos registrados em 2023, o equivalente a três vítimas negras por dia. O estado ultrapassou Rio de Janeiro (871) e São Paulo (510), consolidando-se como o mais letal do país. Desde 2019, o número de mortes por ações policiais na Bahia cresceu 161%, evidenciando uma escalada exponencial da violência.  

Juventude negra na mira

A pesquisa destaca que a juventude é a principal vítima da violência policial, sobretudo jovens negros entre 18 e 29 anos. Nos nove estados analisados, 243 crianças e adolescentes de 12 a 17 anos também foram mortos por ações policiais, refletindo a gravidade da violência contra populações mais vulneráveis.  

Na Bahia, além do crescimento da letalidade, a predominância de vítimas negras reforça o peso do racismo estrutural. “O policial aprende a tratar de forma diferente um jovem branco de terno e um jovem negro de bermuda na favela. E, no imaginário policial, o jovem negro é sempre um alvo em potencial”, avalia Silvia Ramos, cientista social e coordenadora da Rede de Observatórios.  

Contraste com outros estados

Embora a Bahia registre os dados mais preocupantes, outros estados apresentaram dinâmicas variadas. Amazonas, Maranhão, Piauí e Rio de Janeiro tiveram redução na letalidade policial em relação a 2022. Já Pernambuco e São Paulo registraram aumentos expressivos de 28,6% e 21,7%, respectivamente.  

No entanto, mesmo em estados onde houve redução no total de mortes, como Ceará e Pará, o número de vítimas negras aumentou significativamente, 27% no Ceará e 13,7% no Pará, reforçando o padrão racializado da violência policial.  

Transparência e políticas públicas

Apesar do avanço na coleta de dados, a ausência de informações sobre raça em 21,3% dos casos impede uma análise mais completa e detalhada. Para especialistas, a transparência dos registros é essencial para desenvolver políticas que combatam a violência policial e enfrentem o racismo estrutural.  

Na Bahia, os números crescentes revelam uma crise urgente que exige respostas. A cada três vítimas negras por dia, o estado reafirma a necessidade de reformar sua segurança pública e implementar medidas que priorizem a proteção das vidas negras e o controle da letalidade policial.

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