Deu no New York Times e no The Guadian também: dois dos maiores e mais importantes jornais do mundo estão reproduzindo o alerta feito por cientistas: para além de dizimar centenas de milhares de brasileiros, a crise instaurada no Brasil – mais por omissão do Governo Federal do que pela existência do coronavírus-19 – tende a colocar em risco a saúde mundial.
Em uma matéria que aborda a variante P.1, responsável pelo surto ocorrido em Manaus (AM) e que já se alastra pelo país inteiro, o NY Times traça um retrato da dura realidade de quem teve que lidar diretamente com os piores efeitos da pandemia: a morte. “Covid-19 já deixou um rastro de morte e desespero no Brasil, um dos piores do mundo. Agora, um ano após o início da pandemia, o país está estabelecendo outro recorde doloroso. Nenhuma outra nação que experimentou um surto tão grande ainda está lutando contra o número recorde de mortes e um sistema de saúde à beira do colapso. Muitas outras nações duramente atingidas estão, em vez disso, dando passos provisórios em direção a uma aparência de normalidade”, reporta o jornal.
Sabotados pelo presidente
“Mas o Brasil está lutando contra uma variante mais contagiosa que atropelou uma grande cidade e está se espalhando para outras, mesmo quando os brasileiros jogam fora medidas de precaução que poderiam mantê-los seguros. Na terça-feira [02/02], o Brasil registrou mais de 1.700 mortes de Covid-19, o maior número de vítimas da pandemia em um único dia.”, continua.
Além do sofrimento das famílias, o NY Times destaca o posicionamento do presidente Jair Bolsonaro, decisivo para o atual estado de calamidade vivenciado no país. “Muitos brasileiros têm pouca fé em um governo liderado por um presidente que sabotou bloqueios, repetidamente minimizou a ameaça do vírus e promoveu remédios não testados muito depois de cientistas dizerem que eles claramente não funcionavam. Ainda na semana passada, o presidente falou com desdém das máscaras, que estão entre as melhores defesas para conter o contágio, alegando que fazem mal às crianças, causando dores de cabeça e dificuldade de concentração”.
Família despedaçada
Entre vários relatos de civis e profissionais de saúde, o periódico traz a triste e dolorosa história do especialista em marketing, Tony Maquiné, um manauara de 39 anos: ele perdeu uma avó, um tio, duas tias e um primo, em poucas semanas, todos vítimas de Covid-19 – e do governo genocida. Ao jornal, Maquiné disse que “o tempo se tornou um borrão de esforços frenéticos para encontrar hospitais com leitos grátis para os vivos, enquanto organizava funerais para os mortos”. “Foi um pesadelo”, disse o marketeiro. “Estou com medo do que está por vir.”.
Em meio a relatos semelhantes de dor e desespero, o jornal transmite o alerta, na voz de Ester Sabino, pesquisadora de doenças infecciosas da Universidade de São Paulo que está entre os maiores especialistas na variante P.1.: “Outros países devem prestar atenção. Você pode vacinar toda a sua população e controlar o problema apenas por um curto período se, em outro lugar do mundo, aparecer uma nova variante. Vai chegar lá um dia.”, garante ela.
10% do mundo
Mais direto, incisivo e taxativo que o NY Times, o The Guardian cravou: “o surto galopante de coronavírus no Brasil se tornou uma ameaça global que corre o risco de gerar novas e ainda mais letais variantes, alertou um dos maiores cientistas do país sul-americano, enquanto sofria o [até então] dia mais mortal da pandemia”.
O especialista procurado pelo periódico é ninguém menos que o aclamado brasileiro Miguel Nicolelis, neurocientista da Duke University que está acompanhando a crise no país. De acordo com Nicodelis, a comunidade internacional precisa confrontar o governo nacional por não conter uma epidemia que matou mais de um quarto de milhão de brasileiros – cerca de 10% do total global.
Ameaça mundial
“O mundo deve falar com veemência sobre os riscos que o Brasil representa para a luta contra a pandemia”, disse Nicolelis, que passou a maior parte do ano passado confinado em seu apartamento na zona oeste de São Paulo. “De que adianta resolver a pandemia na Europa ou nos Estados Unidos, se o Brasil continua a ser um terreno fértil para esse vírus?”, questionou.
Taxando a atuação do presidente, Nicolelis avaliou que o Brasil é “o pior país do mundo para lidar com a pandemia” e reforçou que a crise interna agora representa, também, um risco internacional. “É que se você permitir que o vírus se prolifere nos níveis em que está proliferando aqui, você abre a porta para a ocorrência de novas mutações e o aparecimento de variantes ainda mais letais.” Foi exatamente assim que a pandemia começou, aliás.
Novo Hitler?
Entre uma fala e outra do especialista, o The Guardian também fez questão de lembrar a vergonhosa e estarrecedora atuação de Bolsonaro, “que sabotou o distanciamento social, promoveu remédios não comprovados como hidroxicloroquina e menosprezou o uso de máscaras”.
Uma das falas mais impactantes, contudo, ficou por conta do neurocientista: “As políticas que ele não está colocando em prática colocam em risco o combate à pandemia em todo o planeta”, reforçou Nicodelis, antes de sentenciar: ele se tornou “o inimigo público global nº 1 da pandemia”.