A resposta rápida é não, visto o que aconteceu em 2020 e no início de 2021, quando chuvas extemporâneas inundaram bairros inteiros, destruíram casas, derrubaram equipamentos públicos e destruíram telhados de pelo menos três unidades de saúde. Como toda notícia de jornal é esquecida, nada mais se fala sobre o assunto, mas, acredite, o caos da Europa é um alerta vermelho para o Brasil.
Pelas notícias dos jornais, até nem parece, mas, agora, na Europa, é verão. E, tal como está acontecendo no Hemisfério Norte, especialistas preveem que o verão aqui o Hemisfério Sul também será marcado por instabilidades no clima e chuvas fortes.
Mais calor, mais chuva
Em entrevista ao portal UOL Notícias, o físico e doutor em meteorologia pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos, Renato Ramos da Silva, explicou que o aumento das chuvas está diretamente ligado ao aumento do calor, daí porque a China e diversos países da Europa estão sofrendo com inundações – e porque o mesmo deve acontecer por aqui.
“Isso é previsto fisicamente pela termodinâmica na atmosfera. A formação das chuvas se dá pela condensação, que é a transformação do vapor em água líquida. Com temperaturas mais altas na superfície, a atmosfera armazena mais vapor antes de precipitar e quando acontece vem com grande volume em um curto espaço de tempo. Isso já é esperado fisicamente pela termodinâmica”, explica Silva.
Sabemos que mais vapor na atmosfera vai proporcionar eventos extremos e vai ser o novo normal. Temos que estar mais bem preparados para isso, mas ainda não estamos”, avalia ele, explicando que, além das chuvas, o Hemisfério Norte também está enfrentando as temperaturas mais altas dos últimos tempos.
Problema social
Para além da questão ambiental, Renato alerta, as alterações climáticas trazem problemas sociais. Se, pela televisão, estamos vendo a destruição na Europa e China, basta ir ao bairro Nova Brasília e encontrar famílias inteiras que poderão falar com propriedade sobre o assunto, aqui mesmo, em Camaçari.
Quando as chuvas intensas chegarem a maioria da população vai sentir os efeitos, mas os mais prejudicados serão aqueles que vivem em situação de vulnerabilidade social: os que moram em habitações precárias, em áreas com risco de desabamento ou nas proximidades dos canais, os que trabalham com agricultura ou pecuária de subsistência.
“Não é um problema apenas das chuvas, mas essas mudanças climáticas também podem ocasionar secas prolongadas que, por exemplo, trazem problemas de estiagem e falta d’água que impactam na produção de alimentos. Os eventos extremos desencadeiam problemas sociais e na economia também, envolvem toda uma rede de desafios sociais que estão interligados ao clima”, ressaltou o pesquisador.
Quem está preparado
Ainda de acordo com o físico, a Alemanha a despeito de ser um país rico e ciente do problema climático foi muito afetado. Em outras palavras, não estava preparado para o volume de chuvas, ou pelo menos não o suficiente.
Por aqui, a previsão é que os estados da região sejam os mais afetados. No entanto, quem transita por Camaçari e Salvador já sabe que é comum haver alagamentos nessas cidades, em função de chuvas fortes.
No entanto, não se trata de uma questão pontual, que possa ser resolvida de maneira estanque, por esse ou aquele governo. O aquecimento global e seus efeitos é uma assunto que vem sendo apontado por especialistas a pelo menos 30 anos e igualmente ignorado pelos detentores dos meios de produção no mesmo período. Agora, de acordo com Silva, é impossível voltar atrás.
“Para amenizar é preciso dialogar e encontrar uma maneira mais sustentável de viver no planeta. Não somos apenas os seres humanos, nós temos uma relação com os ecossistemas e a biodiversidade também, que está bastante vulnerável. A perda do ecossistema é irreparável, mas temos que pensar no todo e não individualmente”, afirma Renato. Ele também destacou a importância de preservar ecossistemas como a Amazônia, por exemplo, e a preservação de espécies.
EM outras palavras, a solução para o problema das mudanças climáticas é global e não local. Ainda assim, agora, com o normal mudando até no clima, é preciso que as cidades se preparem minimamente para lidar com os efeitos das possíveis enchentes, tanto os materiais quanto os sociais. A contagem regressiva foi iniciada. Cinco meses e contando.