Esquerda erra ao subestimar João Doria

O prefeito de São Paulo, João Doria Júnior, tem criado praticamente um factoide por dia. Desde que tomou posse, ele já se vestiu de gari, plantou árvores, privatizou a limpeza dos banheiros do Parque do Ibirapuera e, neste domingo, se passou por cadeirante para testar a acessibilidade das ruas da cidade.

Seu estilo une três personagens da política que fizeram muito sucesso em São Paulo: Jânio Quadros, Paulo Maluf e Fernando Collor.

De Jânio, Doria copiou o estilo de bedel da cidade. Faz visitas sem hora marcada nas administrações regionais, para checar se todos estão trabalhando, e cuida pessoalmente da limpeza de São Paulo. Não apenas com sua vassourinha, como também com as brigadas antipichação.

De Paulo Maluf, Doria copiou o estilo “não para, não para, não para”. Doria faz postagens estratégicas nas redes sociais às 6h da manhã e também no fim da noite. Ou seja: seu nome, teoricamente, é trabalho.

De Collor, Doria copiou as camisetas. Lançou o slogan “Cidade Linda” e agora, neste domingo, o “Calçada Nova”.

Tanta agitação tem um propósito: Doria quer ser presidente da República – e, talvez, sem escalas no Palácio dos Bandeirantes.

Seu plano A é deixar a prefeitura de São Paulo em 2018, depois de dois anos frenéticos, entregando a chave da cidade para o vice Bruno Covas, também do PSDB.

Mas Doria acalenta outro sonho secreto. Se a Lava Jato vier a abater os três presidenciáveis tucanos – o “santo” Geraldo Alckmin, o “careca” José Serra e o “mineirinho” Aécio Neves, todos delatados pela Odebrecht e outras grandes empreiteiras – ele irá se apresentar como o “novo” na política.

Doria teme perder o bonde da história porque outros personagens com perfil semelhante ao seu, como o empresário Roberto Justus, também pretendem ocupar esse papel de Donald Trump brasileiro.

Enquanto Doria avança e se torna um dos personagens mais influentes nas redes sociais, já líder em interações no Facebook, a esquerda erra ao subestimá-lo, chamando-o ora de marqueteiro, ora de palhaço – o que é verdade no primeiro caso e talvez seja no segundo também.

Mais do que o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ou qualquer outro nome da direita, Doria vai se tornando o rival mais perigoso para o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018.

Não por acaso, mesmo depois de eleito, ele manteve sua retórica agressiva contra Lula. Na semana passada, ao plantar uma árvore de pau brasil, ele a dedicou a Lula, o “maior cara de pau do Brasil”. Causou constrangimento entre os operários, mas foi aplaudido por seus aspones e, como se diz atualmente, “mitou” nas redes sociais.

Se Doria fez de São Paulo um circo, ele também contribui para revelar um dos principais erros de seu antecessor Fernando Haddad, que passou quatro anos trancado em seu gabinete, embora tenha sido aconselhado a “prefeitar” mais, indo às ruas.

Haddad foi incapaz até de tomar um ônibus de seu apartamento no Paraíso para a prefeitura para “vender” a ideia do transporte público, uma das bandeiras de sua gestão.

O resultado está aí: depois do “Haddad tranquilão”, São Paulo tem o frenético Doria, que pode repetir Jânio Quadros e subir como um meteoro à presidência da República. Se daria certo depois, é outra história.

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