
Pedro Henrique Santos Krambeck está internado na UTI e aguarda a chegada de doses importadas de antiofídico para seguir com o tratamento; há suspeita de que o jovem criava a cobra ilegalmente em casa
A notícia do estudante de medicina veterinária picado por uma cobra naja repercute no noticiário local e nacional desde a quarta-feira (8/7). Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos, está internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Maria Auxiliadora, no Gama, e espera a chegada de novas doses do soro antiofídico importadas dos Estados Unidos.
A serpente, altamente venenosa, foi resgatada na noite de ontem (8/7), próximo ao shopping Pier 21. Agora, a polícia quer saber como o animal chegou ao DF e já prepara as oitivas de testemunhas que podem colaborar no esclarecimento do caso.
Confira cinco pontos essenciais para entender essa história:
Estudante e admirador de cobras
Pedro Henrique Santos Krambeck Lehmkuhl, 22 anos, morador do Guará II e estudante de medicina veterinária na Uniceplac. Grande admirador dos répteis, ele está internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Maria Auxiliadora, no Gama, desde terça-feira (7/8), em estado de saúde considerado grave.
O rapaz costuma compartilhar diversas publicações com imagens de cobras em seu perfil no Facebook. Em uma delas, uma criança aparece brincando com o animal. Contudo, não há, ao menos em modo público, qualquer registro que revele espécimes criados pelo próprio estudante.
Além do gosto por serpentes, Pedro também exibe publicamente interesse por artistas de sertanejo, como Gusttavo Lima e Eduardo Costa, e pagode, a exemplo de Péricles. Nos esportes, o rapaz acompanhava uma página de notícias do Vasco e três de equipes norte-americanas: Orlando City, Las Vegas City e Philadelphia Union — cujo símbolo é uma cobra.
Perfil biológico das najas
Naja é um gênero de serpente que abrange cerca de 20 espécies. A que picou Pedro é da espécie kaouthia. Elas vivem em toda a África e sul da Ásia e são animais peçonhentos considerados perigosos. É o que explica o biólogo Jair Neto Vieira. “Algumas espécies apresentam veneno neurotóxico, que ataca o sistema nervoso; e outras apresentam venenos cardiotóxicos, que causam inchaço, necrose e têm efeito coagulante”, explica,
As najas vivem, em média, 15 anos e, na fase adulta, podem chegar a medir até três metros. O biólogo afirma, contudo, que apesar de ser um animal extremamente venenoso, a espécie é tranquila e só ataca os seres humanos exclusivamente por defesa. É um animal que só ataca se se sentir ameaçado, mas se um animal desse, por exemplo, entra em uma casa, a reação de qualquer pessoa é ter medo, e isso pode assustar a serpente e fazer o animal atacar”, alerta o biólogo.
O réptil se alimenta basicamente de roedores. As fêmeas de naja botam de 15 a 30 ovos por ninhada, os quais são incubados durante 60 a 80 dias. O veneno da naja pode matar um ser humano em aproximadamente 60 minutos.
Onde está a cobra
A cobra naja que picou o estudante foi encontrada e capturada na quarta-feira (8/7). O Batalhão da Polícia Militar Ambiental (BPMA) resgatou o animal próximo ao shopping Pier 21. Segundo a corporação, familiares de Pedro Henrique Lehmkuhl forneceram informações que levaram ao contato de um adolescente que estaria com o bicho. De acordo com a Polícia Civil, ele é amigo do estudante picado.
“Muito embora seja um animal bem agressivo, nós não o encontramos agressivo”, detalha o comandante do Batalhão da Polícia Militar Ambiental (BPMA), major Elias Costa.
A cobra, de aproximadamente 1,5m, foi encaminhada ao Zoológico de Brasília e ficará no local até que os órgãos ambientais definam seu destino final. Segundo avaliação, ela não apresentou problemas físicos, mas estava com altos níveis de estresse.
Os profissionais não a alimentaram devido ao metabolismo lento que as cobras apresentam: elas podem ficar mais de 15 dias sem se alimentar. Eles não irão manusear o animal enquanto as doses de soro importadas não chegarem ao Brasil.
Tráfico de animais exóticos
A Polícia Civil do Distrito Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) investigam a procedência da cobra. Não há registros de entrada legal de uma serpente dessa espécie no Distrito Federal nos últimos anos, por isso, os investigadores trabalham com duas hipóteses: ela pode ter sido importada, sem autorização, pelo próprio estudante ou ele a adquiriu por meio de um mercado interno clandestino de tráfico de animais exóticos.
De acordo com informações do BPMA, um amigo de Pedro mantinha o réptil em casa. A mãe do estudante teria intermediado o contato dos agentes com o amigo que estava com a cobra. O jovem deve ser ouvido pela polícia. O Ibama informou que emitirá multa, que pode variar de R$ 500 a R$ 5 mil, ao proprietário da residência onde estava o animal.
Soro antiofídico
Por ser uma espécie que não existe no Brasil, foi necessário solicitar o soro antiofídico em caráter emergencial ao Instituto Butantan, sediado em São Paulo. Havia apenas uma dose do medicamento no Brasil, voltada para uso dos próprios pesquisadores do instituto, em caso de acidente.
Pedro foi tratado com o antídoto na quarta-feira (8/7) e apresentou uma leve melhora no estado de saúde. O Correio apurou que dez doses do soro antiofídico usado contra o veneno foram importadas dos Estados Unidos e devem chegar ao Distrito Federal ainda nesta quinta-feira (9/7). As novas doses são preventivas e não necessariamente serão todas utilizadas pelo estudante. As que sobrarem serão encaminhadas ao estoque do Butantan. O instituto produz soros apenas para espécies encontradas no Brasil.