
Jovem de 19 anos chegou ao Brasil com R$ 200; hoje, cursa Direito na Ucsal
Em um ano, a vida do estudante de Direito Ricardo Ugas, 19 anos, mudou drasticamente. De repente, o jovem de classe média alta, que tinha apartamento próprio, carro e estudava em uma universidade particular na Venezuela, foi parar nas ruas.
Ricardo deixou o país natal e se tornou um refugiado no Brasil. Dormia na praça e caminhava 20 quilômetros por dia, nas ruas de Boa Vista (RR), para vender balas. Em abril, veio para Salvador, com ajuda da Igreja Católica. Aqui, divide um apartamento com outro venezuelano e ganhou uma bolsa para estudar Direito na Universidade Católica do Salvador (Ucsal).
Confira o depoimento dele na íntegra:
“Cheguei a Roraima, por terra. Em Salvador, vim pela Igreja Católica. Tenho oito meses no Brasil e seis em Salvador.
Antes de chegar a Roraima, eu morava no oriente da Venezuela, no estado do Sucre. Quando fui para a faculdade, em 2017, mudei de cidade para fazer o curso de Direito. Ficava a duas horas de distância da minha cidade natal para fazer um curso em uma universidade particular.
Eu comecei a faculdade de Direito porque pensava em ter uma boa profissão. Eu tinha uma empresa com meu pai, de purificação de água. Além da sede tinha quatro filiais. Minha mãe trabalhava contadora de uma empresa de Recursos Humanos, e meu pai fazia projetos para o governo.
Nós vivíamos bem. Eu tinha carro, morava em um apartamento só e tínhamos uma boa profissão. Ainda que o problema já tivesse começado, tínhamos como fazer mercado e ainda dava para viajar e se divertir.
Mas a situação foi decaindo. Começou com coisas pequenas. Quando o carro dava problema, não dava mais para consertar por causa do preço da indústria de autopeças.
No mês de abril (de 2017), foi ficando mais complicado. Como saí da minha casa, fui conhecendo mais a situação do país, já que na minha casa não estava faltando nada. Foi mais ou menos no mês de maio que começou o período do protesto de estudantes contra o governo. No princípio, eu ficava longe dos protestos, mas num deles dois estudantes foram presos pelos militares.
Não tinha motivo para eles terem sido presos só por exercer o seu direito de protesto. Um cidadão pode protestar pacificamente, mas mais de 180 estudantes foram mortos. Lembro que isso gerou preocupação da minha mãe de que eu estivesse nesse meio.
Passei a participar e estive na linha de frente da liderança dos protestos. Antes, eu tinha uma imagem da política, mas a visão que eu tinha do governo mudou totalmente.
Era um protesto pacífico, mas fomos chamados de terroristas.
Fomos acusados de atentar contra a integridade do país só pelo fato de responder à violência que eles tinham contra nós. Nós tínhamos que esconder o rosto para não ser identificados por mecanismos de inteligência do estado, que ficavam sempre por perto com equipes de fotografia.
Lembro que um de nós foi identificado depois de um protesto. Ele foi preso em uma farmácia. Graças a Deus, eu nunca cheguei a ser preso.
Nesse meio tempo, de maio a agosto do ano passado, eu estava sem contato com minha família. Para minha mãe, eu estava em minha casa durante o problema. Só contei que participei algum tempo depois, para ela não ficar preocupada. Ficamos sem comer, dependendo daquelas pessoas que queriam nos ajudar. Elas não ficavam na rua conosco, mas chegavam com alguma bebida e comida. Não íamos para casa para nada. Nós só tínhamos pedras para lançar. Eles tinham armas, balas, a guarda nacional.
Eles soltavam presos das cadeias, davam armas a esses presos para atirar contra nós e depois o governo dizia que eram os mesmos manifestantes brigando entre si. Mas o povo todo sabia da verdade.
Os movimentos de resistência não tinham nenhuma ligação política com partidos. Eram venezulanos que não estavam nem com um nem outro (partido).
Fiquei na faculdade até acabar o primeiro ano do curso, em janeiro de 2018. Durante todo esse período, as aulas não pararam. Apenas quando nós pedíamos ao reitorado para suspender aulas quando a gente previa um dia mais forte de protestos.
Quando voltei para minha cidade, eu já tinha decidido sair do país. Foi difícil, porque eu pensava em me graduar primeiro, mas não dava para esperar mais quatro anos. A quantidade de dinheiro que dava para me sustentar em uma semana, agora dava para dois dias.
No início, minha família não estava de acordo. Queriam que eu tivesse o diploma em mãos, mas não tinha jeito.
Depois, eles acabaram saindo também. Todas as empresas do meu pai fecharam. Hoje, minha família está espalhada pelo mundo. Eu tenho tio no México, na Colômbia. Meus pais estão no Peru.
Vendi todas as minhas coisas com a intenção de ir para a Argentina tentar entrar na Universidade de Buenos Aires. Pensava em vir para o Brasil com R$ 1 mil para um aluguel, conseguir um trabalho e reunir dinheiro para ir para a Argentina. Cheguei à fronteira de ônibus.
O problema é que quando cheguei aqui no Brasil, fiquei sem dinheiro. O preço da moeda era cinco vezes maior. Minha previsão era de ter R$ 1 mil, mas acabei com R$ 200 no bolso. Depois, peguei um táxi na fronteira de Pacaraima à Boa Vista que me custou R$ 50. Fiquei com R$ 150 ao chegar em Boa Vista
Estava literalmente na rua.
Fiquei dois meses morando numa praça em Boa Vista. Já era um pouco difícil porque eu estava acostumado a ter uma boa profissão, empresa, carro próprio, universidade particular e fui morar na rua. Mesmo assim, não pensei em voltar.
Eu vim só com uma mochila com os documentos e uma rede para dormir em qualquer lugar.
Lá em Roraima, tinha falado com algumas pessoas que disseram que os brasileiros gostavam de merendar depois de comer. Então, resolvi ir até o mercado e comprei alguns doces, balinhas. Organizei tudo e caminhava por todas as ruas de Boa Vista vendendo aquelas balinhas por um real. Eu caminhava 20 quilômetros por dia.
Ao final do dia, eu ia na padaria, comprava um real de pão, um real de presunto e jantava. Tomava café por um real e comia o pão com presunto. Eram quatro pães por um real.
Fiquei nessa situação por pouco mais de um mês. O que também me ajudou foi o fato de que tinha muito movimento da Igreja e de organizações de direitos humanos na praça onde ficavam os venezuelanos. Eles ajudavam com um café da manhã ou um jantar.
Tinha os imigrantes que se aproveitavam da situação e acabavam afastando as pessoas que queriam ajudar. Tinham alguns (venezuelanos) que eram bandidos, ladrões. Teve um dia que a igreja foi levar sopa e teve um cara que resolveu tomar o celular da menina da igreja.
Teve outro caso de um rapaz que era dono ou encarregado de uma concessionária de carros e que levava, uma vez por semana, uma caminhonete L200 cheia de comida para dar para a gente porque tinha mais de mil pessoas. Um dia, ele levou uma caminhonete de comida e a outra de artigos de higiene, mas tinha gente que se desesperou tentando tomar que uma caminhonete ficou com retrovisor quebrado, janela quebrada. Isso afastou as pessoas que queriam ajudar.
Além disso, eu perdi meus documentos. Fiquei sem passaporte, caiu do bolso e nunca recuperei. Eu estou com status de refugiado, com documentos brasileiros e agora surgiu a oportunidade da universidade e estou tentando o visto de estudante (Ricardo ganhou uma bolsa da Ucsal para estudar Direito).
Nesse momento, quando eu perdi meus documentos, no caminho da Polícia Civil, com raiva, eu comi os doces que eu tinha. Assim, fiquei sem nada para vender e sem dinheiro.
Um dia, em março, chegou um padre de Pernambuco que era da Igreja Católica Ortodoxa. Ele já tinha ouvido falar da situação da Venezuela, mas falou que queria conhecer realmente a situação. Quando ele chegou, disse que encontrou algo totalmente diferente porque os jornais falam pouca coisa em relação ao que está acontecendo lá.
Você olhava para 10 pessoas em Roraima e oito eram venezuelanos. Desses, sete eram profissionais liberais, professores, doutores, engenheiros morando na rua, numa rede embaixo de uma árvore.
Pois o padre quis fazer um projeto lá para ajudar os venezuelanos, mas ele não teve apoio suficiente. No segundo dia que ele foi na praça, ele me falou que tinha um projeto em 2011 em São Paulo de fazer uma residência universitária que acolhia vários universitários paulistas, africanoss porque tinha uma associação para ajuda humanitária ajudava com moradia. O projeto consistia em oferecer aos estudantes uma moradia segura, comida, coisas básicas.
Então, ele fez uma proposta de virmos para Salvador porque ele é nascido aqui e, como ele conhecia mais as pessoas, pensou em fazer aqui na Bahia com estudantes venezuelanos. Ele chamou algumas pessoas como eu e mais dois rapazes venezuelanos pra ajudar com a formação da casa. Cheguei no final de março e início de abril aqui.
Ele conseguiu com a amiga da mãe dele um apartamento no Costa Azul, mas depois ficou complicado o aluguel. Com a falta de apoio das pessoas aqui, o projeto foi desintegrando. Mas foi quando conhecemos o padre Manoel (Manoel Filho, da Paróquia da Ascensão do Senhor e coordenador nacional da Pastoral do Turismo), que nos ajudou com a faculdade. Ele conseguiu uma bolsa para a gente e para mais uma menina que já estava aqui.
Hoje, moro no Cabula, perto da estação de metrô do Imbuí. Moro com um senhor que estva no projeto para ajudar o padre, outro venezuelano. Até agora a igreja nos ajuda, mas só temos só um mês nesse apartamento. Não tínhamos nada e o padre Manoel nos ajudou com doações de pessoas da igreja que deram algumas coisas como prato, talheres.
Hoje, estou só estudando, mas procuro trabalho. Tinha conseguido uma vaga na cozinha de uma pizzariam mas não deu certo com os horários da faculdade, acabava chegando um pouco atrasado.
É um pouco complexo ter saído do país nessa situação. Você está feliz por estar conseguindo ir em frente, estar conseguindo ter mais coisas, recuperar a estabilidade que perdeu no momento. Mas, ao mesmo tempo, vem muita saudade da sua terra, de sua família, de seus amigos. Eu tinha costume de me reunir com meus amigos uma, duas vezes por semana. Tem a cultura diferente, a música diferente. Aprendi o português aqui, mas tenho muita dificuldade. A única coisa que eu sabia falar em Roraima era ‘bom dia, boa noite’.
E eu sempre penso que, mesmo tendo lutado tanto por meu país – porque eu quase morri, estava protestando onde as balas passavam, onde vinha o gás lacrimogêneo… Enfim, toda essa luta pra no final ter que sair é triste. É uma das coisas mais duras. Penso em voltar, mas a situação também é complexa, porque não dá para viver e, além de tudo isso, o governo está atacando todas as pessoas que não estão com ele.
Meus pais foram para o Peru, porque era mais barato do que vir da Venezuela para a Bahia. Eu tenho vontade de ir visitá-los no Peru em algum momento, mas eu teria que ir para a Venezuela tirar meu passaporte e ir pra o Peru. Então, eu tenho que esperar que a situação da Venezuela mude. Eu até posso ir para Venezuela, mas com o risco de ficar lá quem sabe como.
Assisti os vídeos dos brasileiros pelas redes sociais (a confusão em Pacaraima), e a primeira coisa que eu pensei foi na injustiça de quem tem que pagar pelo erro de alguma pessoa que não estava fazendo o que tem que fazer. Realmente é uma situação complicada, porque nem todos os venezuelanos são bons, mas a maioria é do bem. Tem profissionais com títulos, que falam quatro idiomas.
Teve um caso de um venezuelano em Roraima que conseguiu contato para ser encarregado de uma padaria. Ele ficou dois anos trabalhando sem receber o pagamento. Como a gente quer que o venezuelano responda? Uma pessoa ser explorada assim, trabalhando dois anos só para receber moradia. Isso é trabalho escravo. Por isso, ele juntou dinheiro e foi para o Peru. Tinha gente (brasileiros) que chegava com Polícia Federal lá na praça e acusava os venezuelanos de terem roubado para não pagar.
A situação na Venezuela passou do limite da imaginação de qualquer pessoa. O venezuelano é a pessoa acostumada a receber pessoas de fora, não a sair. Você vai pela rua e vai conhecer árabe, sírio, chilenos, equatorianos, argentinos, todas as nacionalidade. E você pode perguntar a qualquer pessoa o trato tido durante todo o tempo e não vai achar gente que diz que foi maltratada. Eles conseguiram crescer nas cidades venezuelanas e é essa oportunidade que está sendo negada aos venezuelanos.
Meu futuro é incerto. Com certeza, vou terminar a faculdade, vou ser advogado, mas acho incerto num sentido de ter a possibilidade de eu voltar.
Mas quero procurar recuperar meu país. Passei tudo aquilo pelo meu país, por isso estou estudando Direito para tentar me especializar em direito internacional, direitos humanos. Eu sei que a maioria do povo venezuelano que está aqui fora não vai viver até que possa liberar a Venezuela.”