Apesar de não ter tido, até o momento, o mesmo impacto visto na greve de 2018, o movimento de reivindicação de melhoria das condições de trabalho por parte dos caminhoneiros continua: uma reunião entre representantes da classe e o Governo Federal, marcada para a próxima quarta-feira (10), vai definir se haverá ou não greve.
A informação foi passada com exclusividade ao Camaçari Fatos e Fotos (CFF) por um dos diretores do Sindicato dos Transportes Autônomos de Bens de Feira de Santana e Região (Sintracam), Jurair Pinheiro.
Durante conversa com a equipe de reportagem do site, ele também passou um retrato de como é a vida nas estradas e das dificuldades enfrentadas pelos profissionais do setor.
70/30
Formado em Direito, mas apaixonado por caminhões, Jurair conta que a vida do profissional responsável por abastecer a maioria dos lares brasileiros está cada vez mais difícil. O principal fator, segundo ele, é financeiro.
“Hoje, do valor do frete, fica para o caminhoneiro apenas 30%. O resto todo é despesa. Hoje, o óleo diesel consome 60% do frete, ainda tem posto de combustível que o pessoal paga para tomar banho, paga para dormir, fora alimentação”, enumera.
Com isso, para ter um fluxo de trabalho que gere renda suficiente para sustentar a família e o próprio veículo mês a mês, é preciso trabalhar 17, 18 horas por dia, revela Jurair que trabalha transportando cargas há 20 anos.
Ilegalidade e compromisso
Perguntado sobre as restrições legais à circulação de caminhões em determinados horários, impostas pelo Código de Trânsito Brasileiro, Jurair é taxativo: “Tem, mas não funciona. Empresa nenhuma cumpre”. Só para se ter ideia, em algumas regiões do país a proibição de circulação chega a períodos de 16 horas consecutivas, ou seja, é impossível cumprir a lei trabalhando 17 horas diárias.
Mas, se a empresa não cumpre, o caminhoneiro, na condição de profissional autônomo, tem liberdade para estabelecer seu próprio horário de trabalho e atuar dentro dos limites legais, certo? Errado. De acordo com o diretor do Sintracam, na prática, não é assim que funciona.
“Às vezes pega uma carga com horário pra chegar. Como é cumpre o horário que determina a lei? Além disso, outros fatores: primeiro que não tem local onde parar caminhão nas rodovias, segundo que o fluxo é grande, então, se for parar às vezes não dá tempo voltar para pegar outra carga”
Como exemplo da jornada excessiva imposta, Jurair aponta os transportadores de alimentos e insumos vegetais. “O pessoal que puxa verdura, que puxa fruta, aquele pessoal ali é o que mais sofre, eles não podem parar para dormir: a entrega tem horário e se não chegar no horário perde a carga”.
Perder uma carga, seja por não conseguir chegar na origem a tempo de carregar ou no destino, dentro do prazo limite para entrega, obviamente, é perder dinheiro. E perder dinheiro não é uma opção. “Ainda mais hoje, do jeito que está o preço do combustível”, reforça.
Alto custo, baixo retorno
Voltando a falar sobre o preço dos combustíveis X o preço dos fretes, Jurair explica que os tais 30% livres a cada viagem não são exatamente livres, já que custos de manutenção do caminhão e eventuais problemas – como um pneu furado, por exemplo, não entram nessa primeira conta.
“Um frete de Camaçari a Salvador é R$ 800. Eu gasto R$ 500 de óleo. Me sobra R$ 300. Vale a pena? O tanque de uma carreta pega 700 litros de óleo. Para encher dois tanques, hoje, se gasta R$ 2.900. Além disso, eu tenho 22 pneus rodando. Cada um, dependendo da marca, custa de R$ 2.500 a R$ 3.000. E tudo isso é custo do caminhoneiro”, enumera, sem citar seguro, licenciamento ou manutenção periódica.
Solidão e sofrimento
Além dos problemas financeiros e da jornada extenuante, há uma questão ainda mais profunda: a solidão e o risco de depressão, resultado de longos períodos sozinho nas estradas e na boleia. “O cara passa muito tempo fora de casa: um mês, dois, longe da família, dos filhos. Tem cara que até entra em depressão”, explica ele, revelando que já viu muitos amigos de estrada chorando de saudade da família.
Como se rodar sozinho por longos períodos e quase não ter vida social já não fosse o suficiente, ainda é preciso lidar com discriminação e preconceito.
“Caminhoneiro é maltratado onde chega, é visto como drogado e não é. Muito caminhoneiro aí é pai de família, a mulher está esperando por ele em casa, esperando chegar de viagem. Fora que os donos das empresas, muitas vezes, maltratam a gente. A gente chega para descarregar e não tem onde tomar um banho, não tem onde comer… você fica jogado”, conta.
Fome, frio e medo da morte
Perguntado sobre situações que ele mesmo viveu durante os 20 anos de estrada, Jurair relata dois momentos em que temeu pela própria vida, mas ressalta que se fosse contar tudo, precisaria de uma noite inteira.
“Eu já passei três dias com fome, atolado numa estrada. Fui entregar um milho lá numa fazenda em Tocantins, rodei 100km numa estrada de chão. Fui. Quando eu voltei, andei uns 40km e começou a chover. Fui passar numa poça d’água grandona, a carreta atolou. Eu fiquei três dias ali, sem banho, sem comer e sem beber água. Quase morro. No terceiro dia, o dono da carga veio atrás de mim, porque percebeu que choveu e imaginou que eu poderia ter atolado. Na estrada não passava ninguém. A noite, quando apagava a luz da carreta, não enxergava nem a palma da mão”
Em outro momento, para não morrer congelado, ele passou uma noite inteira com o motor do caminhão ligado. “Eu fazia Mercosul, fazia Argentina, Chile… Já fiquei uma noite inteira parado numa serra com o caminhão ligado, porque estava nevando e não tinha como sair da carreta, porque iria morrer congelado. Eu estava indo para o Chile”, relembra.]
Desonerar
O resultado da receita de alto risco + baixo custo é o abandono da profissão. “Tem muita gente desanimando. Se você for pesquisar, vai ver que tem um déficit de motoristas. Tem muita empresa procurando caminhão, porque tem muita gente desistindo. Eu mesmo já estou com vontade de largar tudo”, confessa.
Como representante da categoria, ele aponta que a redução do preço dos combustíveis é o principal ponto para manutenção da frota atual. “O nosso maior problema, hoje, é que o preço do frete não acompanha o preço do diesel. Quem acaba pagando a conta toda somos nós”, declara ele, ressaltando que, embora o preço dos alimentos tenha subido, puxado pela alta do combustível, o repasse das empresas ao consumidor final não chega na mão dos transportadores de cargas.
Além da desoneração sobre o preço do diesel, há outras nove pautas, entre elas o piso mínimo dos fretes, a aposentadoria especial, que foi retirada pelo governo Bolsonaro, e o chamado Ciot para todos (Código Identificador da Operação de Transporte, documento obrigatório para todas as operações do transporte rodoviário remunerado de cargas, instituído em 2019 e emitido apenas por transportadoras, o que impede o caminhoneiro autônomo de trabalhar negociando a carga diretamente com o produtor, havendo sempre uma intermediária e, consequentemente, redução dos lucros).
“Nosso objetivo com o movimento é chamar atenção da população. As pessoas não sabem como funcionam as coisas. Já está ruim e vai piorar, porque o preço do combustível vai subir de novo. O mercado está caro porque o combustível está caro… No final, quem paga a conta é a população, então, quando piorar, será para todo mundo”, finaliza.
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