Enquanto milhares de brasileiros estavam – e ainda estão – passando fome, brigando por restos de pele e ossos em açougues, catando “comida” do lixo e vivendo com muito menos que o necessário, o Ministério da Defesa gastou cerca de R$ 535 mil que deveriam ir para o combate à covid-19 em itens de luxo para as Forças Armadas.
A informação foi divulgada nesta segunda-feira (27) pela folha de São Paulo, que teve acesso a um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). O documento, com dados de um levantamento foi feito sob sigilo pela Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas (Selog), revela que esse valor foi dedicado apenas a aquisição de itens como filé mignon, picanha, bacalhau, salmão, camarão e bebidas alcoólicas.
Parte do valor usado para a compra destes itens vieram da ação orçamentária 21C0 – Enfrentamento da Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional decorrente do Coronavírus. “Ressalte-se que, dos recursos destinados ao combate à pandemia Covid-19 utilizados indevidamente para aquisição de itens não essenciais (aproximadamente R$ 557 mil), 96% foram despendidos pelo Ministério da Defesa”, diz o relatório.
Leite condensado
O levantamento feito pela Selog investiga supostas irregularidades na compra de alimentos desde 2017. No início do ano, vale lembrar, o Ministério da Defesa esteve no centro de outro escândalo envolvendo valores absurdos destinados a itens alimentares supérfluos: R$ 14,2 milhões gastos em leite condensado. Na época, foi divulgado que a lista de itens alimentícios dos militares, paga com dinheiro público, também incluía caviar e bebidas alcóolicas.
Razoável?
“Não parece razoável alocar os escassos recursos públicos na compra de itens não essenciais, especialmente durante a crise sanitária, econômica e social pela qual o país está passando, decorrente da pandemia”, aponta o relatório obtido pela Folha. O documento foi encaminhado pelo ministro do TCU, Walter Alencar, a um processo que tramita na Corte.
Vale lembrar que a verba em questão era destinada a ações de combate a pandemia de covid. A alimentação dos militares – apenas os da ativa, como manda a legislação – deveria ser adquirida com o orçamento específico do Ministério da Defesa.
Mais de 1.000 famílias
De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a cesta básica completa mais barata do país custava R$ 456 em agosto. Considerando esse valor, o dinheiro gasto pelas forças armadas em itens de luxo e nada essenciais poderia ter alimentado 1.174 famílias, com alimentação básica, mas saudável.
O dobro da educação
Que educação não é prioridade do governo Bolsonaro, já é de conhecimento público. No entanto, ainda de acordo com dados divulgados pela Folha, o valor total gasto com alimentação dos militares de 2017 a 2021 é o dobro do gasto pelo Ministério da Educação, que repassa recursos para Estados e Municípios em todo o país.
Enquanto o Ministério da Saúde gastou R$ 567 milhões com alimentação (para pacientes, médicos e funcionários em hospitais públicos) e o Ministério da Educação R$ 2 bilhões (para alimentar alunos e funcionários em escolas), o Ministério da Defesa gastou assombrosos R$ 4 bilhões, para oferecer picanha, filé, cerveja, caviar, camarão, bacalhau, leite condensado e mais aos militares.
Quando seu filho comeu tão bem na escola?