Dois homens cegos, um advogado ferido nas costas, uma senhora ferida na perna, um cantor arrastado pela rua ao ponto de se ferir, um entregador de aplicativo algemado e tratado como escravo, uma vereadora petista atingida no rosto com spray de pimenta. Esse é, até o momento, o saldo da operação de repressão (ou seria represália) executada pela Polícia Militar de Pernambuco (PM/PE) em Recife, no último sábado (29).
De acordo com o depoimento de todas as testemunhas e vítimas, assim como todos os vídeos registrados, a manifestação pelo afastamento de Bolsonaro seguia calma, pacífica e ordeira, até que a Polícia Militar decidiu violentar cidadãos indefesos, deixando várias pessoas feridas, alguma com danos incuráveis.
O clima na manifestação era tão calmo – até a PM interferir – que uma das ações foi distribuir máscaras do tipo PFF2, comprovadamente mais eficazes que as de tecido, para evitar a proliferação e contaminação por covid-19 durante o protesto.
Enquanto as vítimas e seus familiares ainda lidam com o peso da nova realidade, o governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), faz pouca ou nenhuma questão de parecer que se importa. No sábado ele divulgou um vídeo afirmando que os policiais envolvidos na agressão direta à vereadora Liana Cirne (PT) foram afastados, mas tergiversou com muitas palavras e pouca efetividade sobre todo o resto.
Em relação às demais vítimas, ele apenas prometeu acompanhamento e assistência médica – que são garantias constitucionais e direitos sociais, já ofertados pelo SUS – e falou superficialmente em indenização, mas, sem em nenhum momento demonstrar quaisquer sentimentos pela cegueira dos dois pais e arrimos de família.
Conversa vai, inércia vem, é preciso lembrar que, na cidade, a pouco tempo atrás, houve uma manifestação a favor de Bolsonaro e a PM não julgou que precisava sequer intervir, muito menos com violência. Até agora, ninguém fala em identificar quem autorizou o ataque aos manifestantes.
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