Recorde de problemas respiratórios sugere subnotificação de coronavírus na Bahia

Somente no mês de março, 350 pessoas foram internadas na Bahia com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG), uma das possíveis complicações causadas pelo coronavírus (Foto: Reprodução)
Somente no mês de março, 350 pessoas foram internadas na Bahia com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG), uma das possíveis complicações causadas pelo coronavírus (Foto: Reprodução)

Testes ficam restritos a situações gravíssimas e números não refletem a realidade

Seu Benja chegou a um hospital público de Correntina, no Oeste da Bahia, com uma leve fadiga, na manhã do último domingo (29). Aos poucos, a falta de ar evoluiu para uma profunda crise respiratória. À noite, o senhor já estava morto. Somente no mês de março, 350 pessoas foram internadas na Bahia com Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARG), uma das possíveis complicações causadas pelo coronavírus. Médicos, pesquisadores e pacientes acreditam que o número sugere uma subnotificação da Covid-19.

O número de internações provocadas pela síndrome respiratória no mês passado acendeu o alerta vermelho. Foi um recorde histórico. No mesmo período do ano anterior, foram 43 internações e, no ano retrasado, 121. Só na semana entre os dias 15 e 21 de março, quando os casos de coronavírus começaram a crescer e a transmissão da doença se tornou comunitária na Bahia, foram 118 internações. Aqui e em outros 18 estados a incidência do problema é considerada “muito alta”.

A SARG costuma ser diagnosticada no estágio grave do coronavírus, que pode começar com sintomas leves de gripe – como coriza e tosse – e progredir, rapidamente, para lesões pulmonares. A presença do problema respiratório é diagnosticada clinicamente, por quadros como queda da frequência respiratória e febre.

Na última sexta-feira (3), quando a reportagem foi fechada, existiam 290 casos de Covid-19 oficialmente notificados pela Secretaria de Saúde do Estado (Sesab). Porém, os dados de Sarg não estão refletidos nos números oficiais de registro de coronavirus. O falecido Benjamin Oliveira, 74, por exemplo, não consta nas estatísticas e familiares ainda não sabem se o senhor estava infectado pelo novo vírus.

“O número [de internações] foi extremamente elevado. Não apenas extremamente elevado, muito acima do padrão histórico”, disse Marcelo Gomes, coordenador do Sistema Infogripe, criado pela Fiocruz para armazenar dados semanais da síndrome no país.

Dois aspectos levantaram a suspeita dos pesquisadores quanto à falta de notificação de coronavírus em todo o país. Não só o crescimento recorde da SARG no momento de uma pandemia provocada justamente por um vírus que ataca o sistema respiratório, como a mudança de perfil dos internados apontou possíveis assimetrias entre o que é divulgado e a realidade.

Era observada, até então, uma frequência maior da síndrome em menores de dois anos. No último mês, a predominância é de pessoas com 60 anos ou mais, que também são as mais afetadas pelo coronavírus, de acordo com as estatísticas oficiais. “[Os números] Sugerem que podem ser casos no novo coronavírus”, explicou Gomes. Mas ainda não há resposta.

A demora pelo resultado

O velório de Benja aconteceu a portas fechadas, no povoado de Mocambo, em Santa Maria da Vitória, também no oeste baiano. Num distrito como aquele, onde vivem, em média, 500 pessoas, todos se conhecem. Mas somente os familiares velaram o corpo entre às 5h30 e 6h. Uma semana depois, a causa da morte do senhor que, por ter um problema crônico de saúde – asma – e ser idoso, fazia parte de dois grupos de risco do coronavírus, é desconhecida.

Fora das estatísticas, os familiares precisaram cumprir protocolos como se o idoso já tivesse o resultado positivo de covid-19. A recomendação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) é que o caixão seja lacrado para evitar contaminações. Já o Governo do Estado determina que não haja aglomeração. Seu Benja foi velado por, no máximo, 15 parentes, entre esposa e filhos. As Encomendadeiras de Almas, grupo tradicional de Correntina que reza pelos falecidos entre a Quarta-feira de Cinzas e a Páscoa, também ficaram de fora.

O material respiratório colhido do paciente foi enviado para o Laboratório Estadual de Saúde Pública do Estado (Lacen). Existem, segundo os dados mais recentes da Sesab, 1.165 amostras à espera de uma análise que demora, uma vez iniciada, 48 horas para ficar pronta. A espera também resulta em subnotificação.

“Claro, claro [que o número está subnotificado]. A gente ainda não está contabilizando quem morreu e não teve o resultado liberado”, respondeu Fábio Amorim, infectologista do Couto Maia, referência no combate à pandemia no estado.

No dia seguinte ao falecimento de Seu Benja, outro homem morreu vítima de síndrome respiratória grave em Correntina. O quadro foi semelhante. Ele chegou ao hospital na segunda à noite e os órgãos pararam poucas horas depois. Os familiares também aguardam uma reposta sobre a causa do falecimento.

É preciso esperar o resultado de exames, diz Marcelo Gomes, da Fiocruz, “para saber o que foi causado pelo coronavírus e o que foi causado por outro vírus”. A síndrome respiratória grave pode ser causada tanto pelo coronavírus, quanto por vírus Influenza como o H1N1 e H3N3. Os dados da Fiocruz mostram que as 350 internações foram provocadas por vírus ainda não determinados em março e outras 39 causadas por Influenza – das quais três morreram.

No Brasil, a campanha de vacinação foi adiantada para auxiliar os profissionais de saúde na exclusão do diagnóstico para coronavírus, pois os sintomas são parecidos. 

O infectologista Fábio Amorim acrescenta que, com o coronavírus, o número de pessoas com sintomas respiratórios que procurarão o hospital, com ou sem covid-19, aumentará. Elas estarão preocupadas com a possibilidade de estar infectadas pelo novo vírus.  “Aí, a gente sabe que terá um leque de pacientes, aqueles extremamente graves, que precisarão de UTI, e os que vão evoluir bem”, diferencia.

A questão é que mesmo pessoas de grupos prioritários não têm sido testadas.

Teste só para os graves

Os primeiros sintomas surgiram no dia 17 de março. José William Oliveira, 25, começou a tossir e apresentar coriza. Médico estagiário do Hospital Roberto Santos, ele sabia dos riscos pessoais de contaminação e foi a uma emergência hospitalar, em Salvador. Saiu de lá como portador de uma gripe. “Se não melhorar em seis dias, volte”, disse o médico. Daí em diante, veio febre, vômito, piora da tosse e dor no corpo. “Eu sabia que batia com o quadro de coronavírus”, diz.

Ele decidiu, então, retornar ao hospital. “Mas quando cheguei, me disseram que o critério técnico para testar pacientes é se ele estiver muito grave”, conta. A reportagem perguntou, então, à Sesab: “Qual a recomendação técnica para quem deve ser testado para coronavírus?”.

A pasta respondeu em tópicos: devem passar por testes pacientes com sinais de gravidade, SARG ou internados; aqueles que tiveram contato com pessoas suspeitas, com confirmação de Covid-19 ou que tenham viajado recentemente para o exterior; profissionais de saúde com sintomas respiratórios suspeitos; gestantes; e pessoas com febre triadas nos aeroportos, portos e estradas.

Os testes na Bahia são validados apenas quando realizados no Lacen ou em um dos três laboratórios privados autorizados pela Sesab. Na rede particular, o teste chega a custar R$ 400. A análise é feita a partir da coleta de materiais respiratórios – aspiração de vias aéreas ou indução de escarro. Na teoria, José deveria ter sido testado. Mas voltou para casa, na Cidade Baixa, sem nenhum direcionamento.

Os sintomas persistiram por duas semanas. Só depois disso ele retomou a rotina.

“O acompanhamento das pessoas com o vírus permite criar um mapa melhor de como a doença está disseminada. Do ponto de vista epidemiológico, você tem um panorama melhor e consegue acompanhar se quem deve está cumprindo a quarentena”, opina.

A subnotificação do coronavírus é reconhecida até pelo próprio Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. “Hoje o número de casos confirmados está muito menor do que o número de casos que está circulando na nossa sociedade. O que aumenta – e muito – a necessidade de termos mais cuidado para segurar [a movimentação]”, confirmou ele em coletiva, na quarta (1º), em Brasília.

Falta de insumo e teste fora do tempo

“É frustrante não poder dar uma diagnóstico a todos, leva por terra tudo que a gente [médico] preconiza”, disse o infectologista Fábio Amorim. Mesmo pessoas com sintomas da doença ficam sem a possibilidade de teste, continua o médico, porque faltam insumos para testar. “Simplesmente não temos o material. Isso não é de agora. Para investigação da H1N1, sempre foi uma dificuldade”, complementou.

Os principais materiais em falta são o tubo plástico que armazena as amostras e o chamado sawb de rayon – três contonentes que tiram a secreção do paciente –, já que o material é exportado.

Durante duas semanas, Indara Felício, 38, ficou de cama, trancada sozinha no quarto. Só saía, de máscara e frasco de álcool na mão, para ir ao banheiro. Sentia falta de ar constante, tosse e dor de cabeça. “Era como se tivesse um bebê de nove meses, crescendo, crescendo dentro de mim, e me impedindo de respirar”, compara. Ela é asmática e, no final de semana anterior ao aparecimento dos sintomas, no dia 14, teve contato com pessoas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Produtora de evntos, Indara ligou para a Vigilância Municipal de Saúde de Vitória da Conquista, no Sudoeste baiano, onde mora.  “Disseram que guardariam os testes para os mais grave. Chorava muito, chorei bastante. Sentia muita dor. Nunca, nem nas crises de asma, senti tanta falta de ar”, lembra. O mesmo aconteceu com Douglas Fernandes de Queiroz, 30, que, depois de ter contato com uma amiga alemã e outras que viajaram à Europa e São Paulo, começou a sentir ardência nos olhos, falta de ar e dor no corpo.

A namorada, Vanessa, teve os mesmos sintomas, na semana retrasada. Os dois moram em Feira de Santana. “A Vigilância disse que os sintomas batiam e pediu que a gente procurasse ajuda de piorasse muito. Quer dizer, vai esperar morrer? Entendo que o sistema [de saúde] não pode suturar. Mas…”, comenta.

Acontece que até para detectar o coronavírus e poder conseguir uma amostra fidedigna da realidade é preciso ser rápido. Existe a possibilidade de o resultado dar falso negativo quando realizado muito tempo depois do aparecimento dos sintomas. O ideal seria entre o terceiro e o sétimo dia da doença, explica Amorim. É o intervalo em que o vírus apresenta maior velocidade de replicação.

Na próxima semana, deve ter início, em Salvador, uma campanha de testes rápidos. A Prefeitura espera receber 100 mil de testes, que rastreiam a presença de anticorpos que o corpo produz em resposta à infecção causada pelo coronavírus – os teste laboratoriais analisam o código genético do vírus no corpo. Em caso de resultado positivo será necessária uma contraprova emitida pelo Lacen, pois a possibilidade de erro varia de 14% a 75%. 

Enquanto os testes não são para todos, os números não conseguem refletir a realidade. O resultado é uma teia invisível, mas não por isso inexistente, de contaminação pelo coronavírus.

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