Se comprovada, a denúncia é extremamente grave e ultrapassa a seara do erro médico, adentrando num espaço ainda mais crítico. “Minha mãe quase morreu aqui dentro, por negligência”, repete a senhora, cuja identidade não foi divulgada. “Pode gravar, pode colocar no YouTube, pode colocar em qualquer lugar. Aqui dentro tem vidas. Tem vidas aqui dentro”, diz a mulher visivelmente alterada.
O vídeo em questão começou a circular nas redes sociais nos últimos dias, o que sugere que tenha sido gravado recentemente. Nele, aparecem duas irmãs, acompanhadas de uma senhora, possivelmente a mãe. As três estão na Unidade de Pronto Atendimento da Gleba A, do lado de fora da recepção, rodeadas por algumas outras pessoas.
De acordo com a mulher, existiria um modus operandi dentro da UPA, através do qual membros das equipes médicas estariam mentindo sobre o índice de saturação pulmonar dos pacientes, a fim de dar alta a pessoas que, supostamente, deveriam ser mantidas internadas.
“Tá todo mundo aqui sendo enganado pelos médicos. Os pais estão saturando 70, 80 por cento lá dentro e eles dizem que é 96%. É mentira. Eles botam 95, 96 pra mandar embora e as pessoas acabarem falecendo dentro de casa”, denuncia a mulher. “Se ela ficasse aqui mais um dia ela ia morrer”, diz a outra pessoa.
Entenda
A saturação de oxigênio nas células é um sinais vitais monitorados em casos de Covid-19, para determinar o tipo de tratamento ao qual a pessoa precisa ser submetida. Como explicou o neurocientista Fernando Gomes, em entrevista à CNN Brasil, “para as células do corpo funcionarem de uma maneira adequada, ela precisa receber oxigênio e glicose – para que faça seu processo de respiração, produza energia e as organelas celulares funcionem de uma forma normal e tranquila”.
“Entre 95% e 100%, a pessoa está bem. De 90% a 95%, gera preocupação. Abaixo de 90%, alguma medida precisa ser tomada, porque pode levar a uma situação de sofrimento, muitas vezes, irreversível dos órgãos”, aponta o neurocientista.
De acordo com a denúncia da mulher, médicos da UPA da Gleba A estariam dando alta a pessoas com saturação muito abaixo do normal
Divergência
Apesar da denúncia ser gravíssima, outra coisa chama atenção no vídeo: o fato de a mulher estar na UPA, aparentemente com a mãe. Durante o trecho gravado, ela fala que a mãe foi tirada da UPA “ontem” e levada para outra unidade de saúde. Daí, surgem várias perguntas: porque alguém que descobriu um esquema de dar alta a pacientes indevidamente estaria, um dia depois de conseguir tirar a mãe desse local, de volta à unidade?
Outra: se a senhora for realmente a mãe da denunciante, como alguém com saturação entre 70% e 80% foi liberada da unidade de saúde onde estava? E mais, se tudo for verdade, porque, ao precisar novamente de atendimento, ela buscou a unidade onde a mãe supostamente quase morreu por negligência médica?
Assim como a denúncia, essas perguntas seguem aguardando resposta.
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